LUIZ GERALDO MAZZA
Marx e a teologia
Um amigo, já falecido, o Cesar Gasparim, ex-presidente do INSS, volta e meia fazia referências a questões teológicas. É que ele e a esposa faziam um curso de teologia, uma espécie de extensão daqueles cursilhos da cristandade. Um dia provoquei-o, já que era um progressista, dizendo que Karl Marx, de uma forma oblíqua, tratara de temas caros à especialidade. Não aquele anátema primário e repetido de que ''a religião é o ópio do povo''.
Encontrei-o num texto do filósofo Roberto Romano no livro ''Corpo e Cristal: Marx romântico''. Refere-se a um pé de página de ''O Capital'', espaço quase sempre neglicenciado pelos comentadores engajados, ''que se encontram preciosas indicações sobre o entrelaçamento de Marx com a episteme de seu tempo''. Vamos ao comentário do barbudo genial: ''De uma certa maneira acontece com o homem o mesmo que ocorre com a mercadoria. Como ele não vem ao mundo com espelho nas mãos nem como um filósofo fichteano, que diz: ''Eu sou Eu'', o homem se espelha, em primeiro lugar num outro homem. Em primeiro plano, só pela relação como o homem Paulo como seu igual, relaciona-se Pedro consigo mesmo enquanto homem. Com isso, entretanto, Paulo é transformado totalmente, na sua corporeidade paulínia, numa forma fantasmagórica e necessária do gênero humano'' (Kapital, Dietz, t.I, p. 67-18). Obviamente esse tipo de texto não ajuda, por sua complexidade e sutileza, a demanda ideológica para nutrir a luta de classes ou qualquer forma de proselitismo, traduzida quase sempre numa cartilha primária supostamente adequada às massas.
Pensamento sofisticado
À época não encontrei o texto referido que pretendia levar César Gasparim a analisá-lo na ''brain-storm'' do grupo religioso. A simples enunciação de Pedro e Paulo, ''inversões espelhadas da mesma Revelação'', conforme Roberto Romano, seria suficiente para uma densa reflexão. Citava isso para mostrar como é difícil, tanto na religião como na política, simplificar afirmações para aproximá-las do nível de compreensão do público visado. É possível que o livrinho vermelho, primaríssimo, de Mao-Tse-Tung, tenha tido mais leitura do que ''O Capital'' como de resto se deu também com o ''Manifesto Comunista'' que afinal tinha o sentido de uma proclamação, uma ruptura. Nele Marx e Engels mostram que naquele momento se dava em escala mundial um impulso de globalização e que se mostrava adequado para a luta de classes e uma postura revolucionária que ia mais fundo do que a conclamação ''trabalhadores, uni-vos''. Costuma-se na redução extrema das interpretações para finalidades de proselitismo e massificação distanciar-se e muito do sentido original que os doutrinadores deveriam se ocupar de conservar e mantê-lo vivo.
Imaginar, por exemplo, sindicalistas de qualquer categoria, mesmo que tida como intelectualizada como a de mestres professores, se ocupando da exegese dessa análise marxista nos seus encontros é demais, ociosa até para dizer o mínimo, tal o imediatismo das supostas preocupações desses agentes. E isso não é apropriado à filosofia, cujo sentido de permanência urge preservar.





