Estético-funcional

Uma tensão dialética na arquitetura (e não apenas nela) é a estabelecida entre o dado estético e o funcional. Acertar essa harmonia não é fácil. A beleza das esculturas de Oscar Niemeyer nem sempre é acompanhada do senso da funcionalidade, seja no ''olho'' do Museu de Curitiba ou naquele disco voador do Rio. Isso se dá também na gestão pública: o Beto Richa recebe prêmio pela Linha Verde nos Esteites. Ora devem ter visto a simulação computadorizada, que substitui a maquete de antigamente, pois tal obra nem concluída está e seus defeitos se amontoam na demora de remoção de problemas como os da ponte sobre o rio Belém e na evidência dos engarrafamentos. E isso sem falar no drama de sua transposição quando concluída sem viadutos e trincheiras.
Tal situação se repete nos parques da cidade, badalados ainda agora nessa reunião da Onu sobre biodiversidade: são bonitos, servem para controlar a vazão dos rios, mas nada fazem pela qualidade da água. Portanto mais estéticos que funcionais. Agradam a vista, enganando-a como tapeiam o meio ambiente.

Grife própria

Em Curitiba qualquer olhar é influenciado pelo marketing lernista: está na raiz de alguns exageros como o de sermos a terceira melhor cidade do mundo, apadrinhada pelo arquiteto e amigo Allan Jacobs e repetida agora com a revista Forbes exibindo-a como a medalha de bronze do ranking de ''esperta''. Não há como considerar que a cidade de hoje ainda permaneça ''idealizada'' na lavagem cerebral dos anos setenta, século passado. Aquele relativo equilíbrio entre metrópole e aldeia, o nosso charme ontológico, essencial, foi rompido e parecemos ignorar a podridão dos rios, que tanto a corrompem, como o caos da circulação no que erradamente fazemos analogia com São Paulo, embora no quesito violência levemos em termos proporcionais uma goleada dos paulistas.
Nessa homenagem ao Beto Richa em função da Linha Verde é mais uma vez a força dessa manipulação ao longo do tempo que tornou a Capital uma grife. Só que tenta ''personalizá-la'' como obra do prefeito que prometeu ficar e agora quer sair antes do tempo. Afinal Linha Verde é o batismo novo do Eixo Metropolitano sobre o qual especialmente, durante oito anos, o Cassio Taniguchi fez proselitismo sem tocar coisa alguma e aumentando a coleção de alternativas de transporte, agora por um modal diferenciado, elétrico e elevado, que também expirou melancolicamente nas pranchas e relatórios.

Usina de conformismo

A badalação em torno dessa ''construção da realidade'' pelos alquimistas do marketing teve um efeito curioso: o de aumentar a autoestima dos cidadãos e num nível tal que gerou o sentimento do conformismo. Daí a dificuldade das oposições em tentar mexer no modelo porque fazê-lo implicaria (vejam quanta safadeza!) em desamor e hostilidade ao suposto paraíso. Juntou-se aí também a burrice dos oposicionistas, valendo-se de um marxismo de compota, colocando o centro contra os bairros, os pobres contra os ricos ou a ''elite'' no jargão dos descerebrados, simulacro de luta de classes, o que explica suas derrotas mesmo com um candidato razoável como Ângelo Vanhoni. O conformismo é barreira difícil de transpor, bem mais complicado que a pista da Linha Verde.

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