Futebol e identidade

Se há manifestação cultural que reafirma o mosaico de influências no Paraná é o futebol. Nossos clubes principais, aqueles que ainda estão na Série A, não conseguem sair dos arraiais da Grande Curitiba. O jogo Coritiba-Santos no oeste, Cascavel, o demonstrou: de cada vinte santistas havia um coxa e dá para imaginar a tragédia se o adversário fosse gaúcho, mesmo o Juventude.
Embora campeões brasileiros (além disso o Atlético foi vice do nacional e da Libertadores e o Coritiba campeão do Torneio do Povo em 1973) não superam as lindes territoriais. É mais fácil encontrar-se um jovem com camisa do Milan do que dos times paranaenses numa cidade como São Mateus do Sul, o que espanta a falta de irradiação de imagem. Um pouco melhor, é claro, do que os casos de um Santo André e de um Barueiri ou ainda de um São Caetano, que esteve na série A e nela foi vice duas vezes nos anos 2000 e 2001. Nessas cidades se qualquer time grande de São Paulo se apresenta o massacre é parecido com o do Flamengo indo atuar em qualquer localidade do nordeste.

Londrina e Cascavel

Londrina (quarto lugar em 1977 e campeão várias vezes no estadual) é uma prova dessa dificuldade. Apesar da paixão de sua torcida, testada em tantos e seguidos sofrimentos (às vezes isso deriva para o basquete e o handebol), a situação tende à melancolia. Tem mais base e história esportiva de outro pólo no oeste, Cascavel, que já foi campeão paranaense, mas não consegue retornar à divisão especial. Tanto no oeste como no sudoeste há carreatas diante de um jogo entre Grêmio e Internacional e elas podem, conforme os resultados de hoje, voltar a ocorrer até numa imaginária simbiose entre os dois.
O Paraná se tornou fisicamente integrado no governo Ney Braga nos anos 60, mas a dificuldade cultural, embora os dois principais pólos, Curitiba e Londrina, tenham superado uma fase de aberta emulação e caminhem até para iniciativas conjuntas. A existência de três Paranás, conforme o mestre Rui Vachowski, está delineada geograficamente: o tradicional sulista, o paulista-mineiro do norte e o gaúcho do oeste-sudoeste.

O desequilíbrio visível

Esse desequilíbrio é visível agora na rodada final do nacional mormente no jogo Coritiba x Fluminense. A arregimentação em torno do time carioca, e mais do que merecida pela escalada da recuperação, é presente na força dos meios de comunicação e não apenas da Globo e isso revela o peso de um sistema e que encontra a nossa vulnerabilidade na circunstância de que qualquer dos grandes times cariocas e paulistas é mais interessante sob todos os aspectos, renda, público, motivação. E isso transforma a condição do clube paranaense, hoje o Coritiba e ontem o Atlético que quase caiu ano passado, em subjugada, levando-o ao empenho da superação e à busca do épico.
O Rio não é mais capital cultural, econômica, financeira e até futebolística. Perdeu todas essas diante de São Paulo e se reafirma no Carnaval e turismo e sobretudo na sediação da indústria cultural. E isso tem pesado na escolha da sede do Pan e agora das olimpíadas. Dai o empenho pelo Mengo campeão e pelo Fluminense mantido na divisão especial.

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