Transparência zero

Apesar de haver se comprometido num programa de transparência, o Legislativo foi pego em flagrante mais uma vez: um dos palmiteiros presos não era servidor do gabinete do deputado Nelson Justus, mas da presidência da Casa. Não há com acreditar que a Assembleia Legislativa esteja realmente disposta a mostrar as suas vísceras quando ela tem um histórico do mundo das sombras como o de Drácula para quem a luz é fatal.

Na concepção dos parlamentares - e isso é extensivo a quase todos - o ocorrido com os aliados do presidente em Guaratuba é um pecado venial superado com algumas rezas do terço (100 Ave Marias, 100 Padre Nossos, 100 Salve Rainhas), pois se trata de algo que pode se dar com qualquer um deles, todos sujeitos a problemas semelhantes com assessores no interior.

Se nem os militares, que tinham todas as condições propiciadas pelo regime discricionário para apurar os desvios da Casa, conseguiram êxito é de prever-se que dificilmente mesmo as ações em andamento como a do caso dos gafanhotos na Justiça e Polícia Federal dificilmente chegarão a bom êxito.

Forma e substância

Sob o ponto de vista formal e da modernização do aparato público houve algum ganho inegável: a TV Sinal é um exemplo. Infelizmente, ela tem que retratar as sessões como efetivamente ocorrem o que faz desse setor da cobertura o mais lamentável pelos bestialógicos aprontados, dos quais o do Belinati com a história dos ratinhos com problemas de ereção é amostra paradigmática. Se a TV dá de dez a zero na Educativa, o que lhe confere certo grau de sofisticação, o resto na Casa continua como dantes, por sinal com os mesmos mandantes de quatro décadas, o que expressa imobilismo fóssil.

O painel das votações, o aprumo das paredes divisórias, as melhoras parciais no portal da internet apenas reforçam que o Legislativo cuida mais da forma, da aparência, do que do conteúdo. A divulgação das sessões plenárias mostra que também na aparência exterior - a roupa, a elegância, o bem postar-se, a marcação teatral, a voz empostada - houve melhora com o que se complementa o quadro de mistificação.

Justificativa genérica

Como Lula nada sabia do mensalão, Requião das aprontadas do irmão nos portos, Beto Richa das ações do seu chefe de gabinete, Ezequias, que se beneficiava de um vaso comunicante com a sogra como fantasma do Legislativo, o presidente Nelson Justus assina tantas coisas e tão contraditórias que até nem sabe se o faz na condição de parlamentar ou de chefe do Poder. Ainda assim para mostrar o caos substancial que marca a corporação, cujos desvios a maioria esmagadora, como sempre, considera toleráveis, parte inevitável de um processo.

Juristas modernos pregam o recall com os eleitos que se desviam do eleitor como se faz com equipamentos na defesa do consumidor. Se o fizéssemos com a Assembleia Legislativa sobrariam quantos da inevitável inspeção?

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