Strauss e o Paraná
Tivéssemos uma Universidade mais atenta e teríamos nas celebrações tanto do centenário, ocorrido no ano passado, como agora na morte do antropólogo Claude Lévi-Strauss, algumas reflexões sobre a passagem dele e de outros como Roger Bastide pelo Paraná entre 1935 e 1938 quando da vinda da missão francesa que se instalou na USP e deu importante arrancada em sua evolução. Por menor que fosse a significação dessa passagem seria relevante fazê-lo porque estamos em pleno ''ano da França no Brasil'' e certamente não deve se isolar no episódio grandiloquente da venda dos caças daquele país e do submarino nuclear.

Como os valores espirituais tem mais permanência seria apropriado apurar-se o impacto em nossa então jovem antropologia tanto do criador do estruturalismo como das investigações sociológicas de Roger Bastide, autor do memorável ''Arte e Sociedade'' e que numa das suas passagens por Curitiba deixou um texto saboroso que a Editora Guaíra publicou denominado ''A psicanálise do cafuné''.

Estudos em ação
A mestra lapeana Teresa Lacerda, neste momento, está envolvida num grupo de estudos que precisamente aborda o que os franceses deixaram no Paraná. Até uma das minhas fixações ideológicas, o padre J.Lebret, um dos pioneiros da abertura à esquerda na Igreja, é referenciado pelo papel que os seus seguidores da Sociedade de Análises Gráficas e Mecanográficas Aplicadas aos Complexos Sociais, Sagmac, encarnada aqui e em São Paulo pelo frei dominicano Benevenuto de Santa Cruz, tiveram em nossa filosofia de desenvolvimento aplicada, a corrente do solidarismo e que fugia ao esquematismo maniqueísta da Guerra Fria. O documento, cientificamente mais avançado, é o Plano Trienal de Ney Braga, vertido em 1963, véspera do golpe militar, que repudiaria todo seu contéudo, inclusive a circunstância de indicar o método Paulo Freire, ideologizante, para o processo de alfabetização em massa.

Memória, o entrave
Afinal além de Saint Hilaire e do próprio Alfred Agache, autor de planos diretores de Curitiba e São Paulo, passaram por nós outras figuras míticas, algumas num plano remoto, outras num mais imediato. Nesse particular fixar a presença de Helene Garfunkel que juntamente com seu marido, o pintor Paul, deitaram raízes no Paraná é relevantíssimo. Madame Garfunkel no comando da Aliança Francesa foi um dos fatores avançados na formação de quadros técnicos e científicos naquele país, muitos deles da vanguarda da Copel e do Instituto de Biologia e Pesquisas Tecnológicas e outros no front humanístico, tal qual o filósofo Pupi que foi assistente do pensador tomista Jacques Maritain.

Um Estado como o Paraná que permitiu a perda da maior coleção bibliográfica, de jornais e almanaques do Paraná para a Universidade de Camberra na Austrália é compreensível o lapso dessas avaliações sistemáticas. Já me referi ao fato ocorrido na gestão Paulo Pimentel em que o governo hesitou na compra do acervo pertencente a Adir Guimarães e os australianos entraram na parada e levaram o tesouro. Se quisermos conhecê-lo já aproveitamos para uma visão dos cangurus, do ornitorrinco, coalas e, quem sabe, o diabo da Tasmânia.

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