LUIZ GERALDO MAZZA
Condenados ao tédio
A partir do ano que vem os jornalistas da área política estarão sujeitos ao tédio mortal a que Fellini e Antonioni tanto se referiram no cinema e Sartre, Albert Camus e outros tantos como Kiergarden na filosofia. No momento em que Requião deixar o domínio do palco estaremos condenados ao tédio, já não teremos a surpresa sequencial seja nas afirmações absurdas ou nas pretensamente verdadeiras.
Mais de uma homenagem deve ser prestada ao governador, a primeira por ser ele que de forma tortuosa, nos obriga a fazer democracia, já que é a negação radical dela. Trata-se, como diriam os epistemologistas, desde aqueles versados na maiêutica socrática (a parturição mental que vem pelo raciocínio dialético e de forma dedutiva), de um encadeamento lógico, de busca da verdade da tese oposta à antítese para chegar à síntese e assim por diante.
Algumas ironias do governador sobre um hábito dominante da mídia do passado que era o da adesão generalizada ao poder foram educativas como a promessa de que daria um choque de capitalismo no setor. Ele que se beneficiou dessa adesão durante bom tempo decidiu abrir hostilidades não a todos, é claro, com o que teve um apoio mais econômico sem contar o engajamento da TV Educativa.
Um homem da arcádia
Componentes do discurso como a vertente nacionalista e agora o modismo idiota do bolivarianismo, a luta infantil contra o mercado e a globalização montam um painel digno dos mais radicais arcaísmos. Quando era prefeito da Capital lançou os termos ''aldeamento'' para um ponto livre de ônibus nos terminais e ainda recuperou a designação ''freguezia'' mantida por seus sucessores. Como isso não é suficiente foi um dos primeiros a cultivar a figura do Ouvidor, que não era o Pardinho da tradição histórica mas uma mistura aculturada com o ''ombudsman'' sueco e exportado para o mundo.
Mesmo aí, com essas inclinações regressivas, não deixa de por uma via oblíqua de opor ao sentido dominante do capitalismo privatista a tentativa de reerguer o Estado Provedor, outra utopia do atraso, mas que poderia, se bem articulada, opor em dependências públicas à gestão privada uma tentativa de emulação, de competição. É o que faz no Porto com os resultados que sabemos, desastrosos e agora com a sofisticação empresarial pública de o Estado comandar uma draga como se tocar uma embarcação não exigisse todo um aporte humano e mormente tecnológico com a hierarquia da marinhagem e com um problema sério de não poder expor um aparato caríssimo à hipótese bastante provável da ociosidade.
O ditador como desafio
Da mesma forma como o dragão desafia São Jorge, o autoritarismo testa a qualidade da democracia vigente. E estando longe do tirano, Requião é uma cobaia para qualificar pessoas e instituições. Se elas se ajustarem a ele é pior porque a democracia estará sendo derrotada. Todas as esferas de poder, aquele tripartite de Montesquieu, as instituições liberais como a OAB, os conselhos regionais de Medicina e Engenharia são partes do processo. Quando Requião as coopta, ruim para ele e pior para elas, e isso acontece.





