Lição das greves

Tivemos nestes últimos 30 dias várias greves, algumas em áreas essenciais como a dos Correios, dos bancários e dos metalúrgicos o que deu para testar a cultura acumulada nesse tipo de conflito. Ficou visível o nível de mobilização dos trabalhadores e a inocuidade das instituições mediadoras como o Ministério e a Justiça do Trabalho, tão decantados desde Getúlio Vargas.

Pergunta-se: se foi possível em todos os casos, com aproximações razoáveis da aritmética, à convergência por que tanta protelação, rituais tão elásticos e a inexistência de instrumentais da administração ou da justiça que acelerassem o entendimento?

O pior, no entanto, não é isso. Dá impressão de modernidade, mas seriam essas relações de trabalho razoavelmente civilizadas? Nem sempre: o assédio moral é uma constante (não apenas naquele caso do governador agredindo verbalmente o técnico do Iapar e anunciando-lhe a demissão) e especialmente nos bancos é que se percebe a violência da pressão patronal exigindo de gerentes de negócios metas impossíveis de alcançar na venda de produtos.

A rotina, portanto, nada tem de harmoniosa.

Operação tartaruga

O setor público deveria dar o exemplo ao privado de padrões de relacionamento bem melhores. Também isso não acontece. Tanto que no andamento da semana passada os motoristas do transporte coletivo de Curitiba fizeram operações-tartaruga por não aceitarem a prensa das multas da dupla famosa Diretran-Urbs que detona os ganhos desses profissionais, condenando-os à paranóia, visível no fato de que chegam a receber penalidades de até o dobro do que ganham. Como a relação entre as empresas e a gerenciadora é pactual, acertada, acomodada, jogam o peso das duas autoridades, da prefeitura e do patronato, em cima do servidor que fica indefeso. Também cobradores e operadores das estações-tubo sofrem absurdo maior se assaltados: são obrigados, ainda que parceladamente, a pagar o resultado do furto, o que é amostra de concepção de direitos humanos com o império da presunção de culpa, como se associados ao crime como o poder concedente o é com os permissionários.

Volta às galés

A hipocrisia social e os bem arquitetados planos de marketing do prefeito ocultam essa barbárie como se também fôssemos um modelo de relacionamento entre direção e trabalhadores. Como os sindicatos, os dois, estão amarrados é preciso um alto nível de consciência para que haja um sinal de ruptura como se deu nessa tímida, mas necessária, operação tartaruga, mal divulgada também, o que revela a amarra dos meios de comunicação com a prefeitura. Nesse caso, ao menos (e o exagero tem função didática), voltamos ao tempo das galés: o tocador do bumbo, o hortator, que dita o ritmo das remadas, é a ''anestesia'' do explorado como o é o gerente de negócios correndo atrás de metas inviáveis nos intermediários financeiros.

mockup