Amnésia militante

Ainda que detenhamos hoje recursos sofisticadíssimos para memorizar os fatos é justamente no exercício da política que se percebe que a fauna, a ela dedicada, é favorecida pela amnésia do público. Semana passada o deputado Jocelito Canto, ao comemorar os 10 anos do pagamento pelo Estado da dívida com o saneamento do ''saco de roubalheira'' do Banestado, fez uma dramatização bem ao seu estilo popularesco na base do ''parabéns pra você'', inclusive com bolo de velinhas e tudo mais. Por um descuido quase toca fogo na papelada. Mostrou em números a evolução do empréstimo e pagamentos que lembram quase a trajetória de um mutuário do antigo BNH: já pagou até agosto R$ 7,26 bi e até aquele mês o acumulado em saldo devedor era de R$ 9,14 bi. Ironizou o fato de que a prestação de agosto de R$ 68 milhões era maior do que o Fundo de Participação recebido no mês de R$ 63,4 milhões.

Lastimar o leite derramado e o fato consumado, impossível de reversão, é sempre uma forma de o político mostrar-se sensível.

E os outros?

Não é apenas em relação a 1964 (até hoje não se chegou ao consenso se foi golpe ou revolução, fato que se repete em Honduras), que aparecem mais vítimas de abusos, mártires em série e o número de vilões é inelástico. As ''Diretas'', por exemplo, do Dante de Oliveira, foram amplamente derrotadas e o único que efetivamente encarou os milicos foi o Maluf que ganhou do Andreazza como já havia derrotado anteriormente em Colégio Eleitoral o Laudo Natel, também preferência do Bradesco e dos fardados. Em Curitiba, na Boca Maldita, montaram um placar com o voto da bancada paranaense nas ''Diretas'' e curiosamente muitos que as abraçaram foram derrotados na eleição seguinte.

Essa reflexão vem a propósito do tema levantado por Jocelito Canto: quantos deputados, que aí estão, deram plena cobertura à privatização do banco estatal que já estava quebrado? Ninguém também, apesar da defesa aberta da estatal, tem ideia de quantos que hoje tecem loas à Copel se empenharam em favor do leilão que a privatizaria, visível na derrota por um diferença mínima, da lei de iniciativa popular que o impedia.

Um olho atento

Como agora há a presença da TV Sinal que cobre as sessões legislativas há mais condições de cobrança da atitude verdadeiramente assumida pelos deputados, porque melhor do que folhear anais ou a taquigrafia é ouvir e ver gravações e estas, mesmo quando expungidas dos exageros, devolvem o processo mnemônico aos cultores da amnésia. Da mesma forma que esta FOLHA faz o registro preciso da frequência de parlamentares e das ações de privilégio e segredo da Comissão Executiva, deveria fazer esse exercício de recomposição dos parlamentares atuais nessas situações limite como as do Banestado e da Copel para evitar que prevalecesse o cinismo dos caras de pau que se valem, de forma sistemática, da escassa memória das pessoas e prossegue no abuso de confiança. Algo com sentido profundamente pedagógico e de restauração histórica. Em política é comum um ácaro tentar fazer-se passar por Ícaro.

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