Direita, Esquerda
Dias passados o presidente Lula se referiu ao fato de o país, neste instante, só ter candidatos de esquerda como se isso significasse, por si, um cenário da mais absoluta higidez política. Aquilo que se diz de ''esquerda'' no Brasil já dominou o espaço com José Sarney que apesar do seu halo feudal era tido e havido como um quadro da esquerda nacionalista brasileira. Como de certa forma as coligações JK-Jango tinham um certo sentido de centro-esquerda, longe porém das frentes populares européias que estiveram na América do Sul mais na eleição de Salvador Allende no Chile do que nas nossas.

No primarismo da política brasileira a direita não é uma peça necessária do processo civilizatório, mas algo a ser liquidado. A direita é na Europa uma força dominante como também no Brasil como se viu, aliás, na Constituinte. Num dos últimos textos de Norberto Bobbio (''Dextra, Sinistra'') o tema foi dissecado e o autor, senador vitalício da Itália, que sempre se empenhou em fazer o ponte entre liberalismo e socialismo, aquele polo voltado à defesa da liberdade e o outro da igualdade. E a forma dominante é essa que não aceita mais o sacrifício da liberdade para a construção hipotética de um novo homem.

Reducionismo artificial
O jogo emocional da política, ao deixar-se levar pelo maniqueísmo, a redução entre ''bem'' e ''mal'', como se pretende agora com a formatação do projeto do pré-sal e o papel que nele exercerá a Petrobras, retoma o clima do fim dos anos 50, século passado, em que o radicalismo impedirá o raciocínio pela simples razão de que os que quiserem questionar a linha oficial serão olhados como inimigos da pátria, vendidos ao capital internacional, tal qual o nosso governador fez aqui no Paraná com a luta contra os transgênicos num exercício de fundamentalismo primário e sem sólida justificação técnica e científica. Uma cabeça luminosa, a de Hélio Jaguaribe, tentou, pouco antes do pleito de 1960, aquele que consagraria Jânio Quadros, racionalizar o tal espectro ideológico em choque, a saber o liberal-cosmopolitismo (seria o que hoje se diz do neoliberalismo que veio bem depois) oposto ao nacional-trabalhismo, aquele a direita e esse a esquerda. Esses enquadramentos rígidos no excesso de reducionismo são falhos por desprezarem o fato de que entre o infravermelho e o ultravioleta há uma gama de tonalidades e matizes que ora se aproximam ou se distanciam dos conceitos previamente impostos.

Dicotomias da moda
Hoje nem o derradeiro marxista, Hobbsbawn, aceita mais o sacrifício da liberdade como se deu na União Soviética e no leste europeu. Não é fácil, é claro, obter um nível de igualdade ou de redução da exclusão sem uma forte ação do Estado regulada pela sociedade. A crise atual reforçou o papel do Estado interventor, à falta de outra alternativa como nos ''Esteites'' em que quase assume o papel de síndico da massa concordatária. Houve quem achasse que o keynesianismo estaria de volta, por força de circunstâncias. O mesmo se dá entre desenvolvimento econômico e social em que aquele sai mais à frente como se a ordem capitalista padecesse de mal incurável, uma questão de DNA.

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