Cidade Ouro

Como Marina Silva com a sua candidatura recupera a utopia, que tanta falta faz ao exercício da política, dá para perceber que o governo Lula também deseja a disputa sucessória em cima de uma fantasia em torno de um fato concreto, mas ainda distante, como a adequada e produtiva exploração do pré-sal. Tenta-se gerar uma ''ideia-força'', mas com ingredientes de atraso político em torno de velharias como a substituição de importações, válida nos anos 50, a pretexto de ampliar o parque industrial e a tecnologia nacionais, insustentável nas relações de hoje.

A forma como se está cultivado, e isso há bastante tempo, a noção do tesouro inesgotável, mais do que o pote de ouro nos limites do arco-íris, retoma algo sensível nossas práticas e fetiches no ufanismo. Dá para pôr aí a abertura do ''Terra Virgem'' de Vicente Celestino: ''O meu Brasil para aumentar a sua glória// dia virá em seu futuro ascencional// em que o mundo invejará a sua história// porque serás um paraíso universal!//''

Analogia e concretude

Faz parte das nossas tonalidades afetivas essa visão que não apenas o nacionalismo de Afonso Celso explorava como também poetas e estadistas, dos quais sempre o mais lembrado, até pelo tempo de serviço, foi Vargas.

A formulação do Plano de Metas de Juscelino Kubitschek poderia ter tais elementos subjacentes (o ufanismo, o amor à terra), todavia buscava expressar- se em ''slogans'' e ''teasers'' mais concretos como o compromisso de fazer o país avançar 50 anos em apenas 5, não se rendendo a exageros estatizantes e nacionalizantes, como os presentes na ideologia do pré-sal, sem deixar de fixar etapas de nacionalização em vários setores especialmente o relativo à indústria automotiva. Incomparável a maneira como essas etapas se deram naquele tempo com a forma como se implantou, recentemente no Paraná, o ciclo das montadoras.

O referencial JK

O Brasil viveu um estado de euforia, de união nacional na busca dos objetivos de superação, com JK e sem arranhões à democracia ao ponto de o presidente ter tido o peito de anistiar militares da Aeronáutica (forjados na República do Galeão que levou Getúlio ao suicídio) nas sublevações, com características de guerrilha, de Jacareacanga e Aragarças. Esse sedimento ficou e tanto que quando Itamar Franco, afinal também mineiro, quando se empenhou no retorno do fusca na verdade queria a recuperação do tempo, do clima psicossocial, que faria daquele modelo de automóvel um dos ícones do processo.

É possível somar utopia à concretude de metas, a despeito do apego mais fácil dos líderes pelas magias do ''marketing''. O pré-sal não é a Cidade Ouro de Campanella e pode até ser um risco por esse divisor maniqueísta com que visam moldá-lo como se a sua formatação não merecesse análise crítica e todos os que a ela se arriscassem fossem traidores da pátria. Todo fundamentalismo é sempre desprezível, contra a razão, reacionário e, sobretudo, primário.

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