LUIZ GERALDO MAZZA
Anverso do chefe
A subserviência é a regra no governo estadual. Uma simples insinuação de transgredi-la cria os maiores constrangimentos a quem ousa adotá-la e acaba tendo o efeito desejado pela ''nomenklatura'' mantendo aquilo que sempre se tenta conservar: o espírito de rebanho. Como lecionava Munhoz da Rocha aquele em que ''visto um, vistos todos''.
O Pessuti, pré-candidato do PMDB, não é dado a contestações, todavia não é um bajulador. De sua personalidade ressalta um traço distinto: é o anverso da figura do chefe patriarcal, seu oposto imediato na educação, na sensibilidade e na convivência com aliados e adversários. Parece que esse é o seu maior capital eleitoral: a circunstância de não contrariar o hierarca, mas destacar-se como o seu contrário. Não é presunçoso, não se acredita um sábio capaz de emitir juízo de valor sobre todas as coisas e, sobretudo, capaz de algo que nem de longe o outro cultiva: ouvir, ter noção viva de alteridade, não tentar sobrepor-se com quem dialoga como se lhe negasse a existência.
Virtude presumida
Muita água flui por baixo da ponte até a convenção dos partidos. Até lá haverá uma definição mais clara dos campos e que até aqui apontam para uma linha plebiscitária daquelas que transformam o primeiro turno em segundo. As pesquisas, de um modo geral, apontam para um enfrentamento entre Beto Richa (que precisa ganhar o interior a partir de sua identificação como londrinense) e Osmar Dias, ambos com a aspiração de liquidar a parada de saída. Como Orlando Pessuti aparece como o terceiro, a não ser que o fenômeno Marina Silva tenha projeções locais (o candidato Mello Viana não tem a menor credencial para expressar esse alinhamento até porque Victor Burko contaria com melhores condições), é possível fazer dessa candidatura, desde que arregimentado o PMDB e eventuais aliados, o fiel da balança.
Contatos pessoais e mais do que isso conseguir na televisão e no rádio, pela coloquialidade, ressaltar a individualidade do candidato que não se confunde, em termos de estilo e comportamento, ao do maior eleitor, o atual governador seria o suficiente para atribuir-lhe o valor por não repetir e nem pretender reproduzir aquele de quem é o regra três. Os que foram humilhados no curso da atual gestão pela agressão gratuita e a desclassificação com ele rapidamente se identificariam.
Nada fácil
Lideranças fortes, como se deu com Ney Braga, quando há eleição de sucessor, como ocorreu com Paulo Pimentel em 1965, agem como se continuassem no governo. Pimentel teve enormes dificuldades no convívio com os mais radicais do neysmo que muitas vezes tentavam agir como se expressassem a linha do chefe. Isso se traduziria, mais tarde, já nos estertores do regime militar, com a mudança da programação da Globo da rede de Pimentel para o grupo amparado por Ney Braga, Canet Júnior, Afonso Camargo Neto.
Não será fácil conviver com Requião e sua ânsia de bater recordes eleitorais como senador, valendo-se de mais de uma alternativa para a sucessão estadual, mas se o estilo for mantido e a presunção dessa independência aclarada Orlando Pessuti será muito mais do que imagina o PMDB como força eleitoral.





