LUIZ GERALDO MAZZA
Fervedouro ideológico
Volta e meia - e isso tem acontecido recentemente - misturam valores de sentido conflitante como ''nacionalismo'' e ''socialismo''. Uma certa esquerda de viés populista assume a plataforma. Ora o partido do nazismo tinha na sua definição essa marca: Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães. Postava-se como ''nacional'' e socialista e tinha um caráter classista, talvez até para melhor definir-se no espectro ideológico da época.
Quem leu o ''Manifesto Comunista'' de Marx-Engels percebeu que o cenário mundial ali detectado era também de globalização, como aliás em vários momentos da história houve o revezamento dos Estados artificiais como a União Soviética e o da Iugoslávia, por exemplo, que se fragmentaram, às vezes, em lutas étnicas cujo julgamento foi levado a cortes internacionais. Perceptível isso agora no caso da Estônia que luta para voltar a falar a sua língua em lugar da russa que lhe impuseram por uma condicionante imperial e política.
Uma das piores criações brasileiras, em termos intelectuais, foi o Instituto Superior de Estudos Brasileiros que, dotado de quadros de opiniões divergentes e democráticas, se transformou numa fábrica de ideologias voltada para uma associação entre nacionalismo e socialismo, este com tonalidade marxista ajustado ao clima da Guerra Fria. A ideia de Juscelino Kubitschek ao apoiá-la era o de dar equilíbrio a um outro polo de reflexão, a ESG, Escola Superior de Guerra, doutrinada aqui pelo coronel Vernon Walters, chefe da CIA, e que havia sido oficial de ligação dos norte-americanos com os brasileiros na campanha da Itália, na II Guerra Mundial.
O constrangimento
Havia quadros de primeira no Iseb como Roland Corbisier, Nelson Werneck Sodré, Hélio Jaguaribe, Guerreiro Ramos. Este, que foi orientador da nossa melhor cabeça, Belmiro Valverde Castor Jobim, costumava dizer dessa passagem que não era possível recordar daquele fundamentalismo sem alguma forma de constrangimento. Só para dar uma ideia prática do que era essa arregimentação basta lembrar que sua presença suprapartidária estava na Frente Parlamentar Nacionalista e uma das forças, ali representadas, ainda que com origem na UDN, União Democrática Nacional, era o José Sarney, também um dos principais articulistas do jornal doutrinário ''O Semanário''.
Ontem a esquerda nacionalista, hoje a bolivariana, contradição em termos.
Bolívar & Marx
Karl Marx abominava Bolívar a quem tratava como covarde e brutal. Apesar do anátema a afinidade de conveniência é feita. Pode-se acusar em Marx algo como o ''eurocentrismo'', visão civilizatória oposta à reação colonial. Discurso de Bolívar (Constituinte da Bolívia, 25 de maio de 1826) compara o presidente ao sol que, ''firme em seu centro'', dá vida ao Universo. ''Esta suprema autoridade deve ser perpétua'' pela exigência de um ponto fixo ''ao redor do qual girem os magistrados e os cidadãos, os homens e as coisas''. Para Bolívar, este ponto é o presidente vitalício, acentuou. Daí a pretensão retomada.





