LUIZ GERALDO MAZZA
A revogação da realidade
Quando os políticos se travestem de demiurgos - e os tivemos muitos, tanto nacional como regionalmente - em primeiro lugar revogam a realidade mesma e num plano mais extenso revogam o povo como sujeito-alvo dessas maquinações. Como é regra hoje agarrar-se à simplificação do marketing em lugar da reflexão intelectual, pensada, centrada em alguma doutrina, outra evidência do processo de desumanização que nos engolfa, há poucos dispostos a resistir à tentação.
Na semana passada vimos como o nosso governador é autossuficiente no que diz e a confiança que tem nos efeitos de suas falas como a desastrada e até infantil afirmação de que a gripe A não teria as dimensões divulgadas e que seria uma jogada das economias centrais em crise para faturar. Raciocínio estudantil da Guerra Fria lá pelos anos 50 e 60 em função da fermentação ideológica e de sua tradução na sua expressão mais primária, a de condicionar massas.
Desmentido rápido
Não faltou a sugestão de que o imperialismo ianque estaria por trás da terrível manobra quando o tal Oseltamivir, princípio ativo do Tamiflu, já processado em primeiro lote pela Fiocruz, é do laboratório Roche, da Suíça. Rapidamente, em menos de 48 horas, o que se viu foi o retorno da lucidez ao determinar, por efeito dos alertas da Organização Mundial de Saúde, a suspensão das aulas. Dá para imaginar o grau de constrangimento do secretário Gilberto Martin, da Saúde, ao ouvir tamanho disparate e sem poder reagir diante da camisa de força obrigatória da escolinha que lembra o centralismo ''democrático'' dos soviéticos. Contestar ou simplesmente ponderar naquele ambiente é impossível até porque a claque reagiria como fez quando a Teresa Uille Gomes defendia o Ministério Público naquele cenário e que felizmente foi em parte contida pelo governador, aí na posição correta de mediador.
Alteridade, a carência
Não há a visão do outro nesse estilo de fazer política, de alteridade. O ''outro'' é a abstração genérica dos que recebem o maná bíblico seja das bolsas ou do ''leitinho das crianças'' e da ''luz fraterna'' e da bênção dos sermões. Daí é possível duelar e vencer a realidade seguidamente com estatísticas que contestam as de origem mais aceitável e afirmações contundentes como a de que a barragem de Salto Caxias está para estourar, como também se encontrava prestes a explodir a Usina de Gás de Araucária. Tantas são as situações assemelhadas, e de tão repetitivas, que é difícil apurar qual o maior absurdo.
Há uma certeza nisso tudo: a de que a amnésia do público é o nutriente maior desse processo. E isso está expresso na carreira vitoriosa do governador, o único a exercer três mandatos na história paranaense e por eleições tensas, desde o estelionato do ''Ferreirinha'', mal apreciado pelo TRE, e também naquilo que claramente se advinha, a sua vitória, fácil, provavelmente hegemônica, ao Senado e também pela segunda vez.





