Amostra embaçada

Curitiba, como amostra eleitoral do Paraná inteiro, é um risco. Embora hoje mais diversificada, mais mestiça e menos europeia, com a contribuição dos migrantes presentes nos bairros novos, está longe de constituir-se em síntese da população. Daí o relativismo da pesquisa que colocou Beto Richa no nível de um Neil Armstrong dizendo que esse passo o aproxima da glória já que o cenário detectado é o da capital. Na última eleição governamental Osmar Dias venceu só na capital e São José dos Pinhais na Grande Curitiba e Beto obteve 77% dos votos agora rebaixados, na sondagem, para 65%.

Nem sempre, na tradição, Curitiba sintoniza com o resto do Paraná: candidatos derrotados como Munhoz da Rocha em 1947 e 1965 para Lupion e Pimentel foram aqui consagrados. Na presidencial de 1955 o líder integralista Plínio Salgado venceu em Curitiba e Ponta Grossa.

Ibope alto não salva mandato: é possível que Jackson Lago, do Maranhão, andasse nas estrelas quando foi cassado e muita gente boa caiu por acusações semelhantes às levantadas contra o prefeito curitibano. Só uma coisa é contra a oposição: ela é vetada, por estilo e vocação, pela cidade e esta é identificada, por ideologia, com o modelo de gestão vitorioso que vem desde Ney Braga, 1955, e que se intensificou com Lerner. Beto é beneficiário dessa sequência e os que o atacam, quase sempre os mesmos, vistos como selvagens que ameaçam desconstruir a cidade. E as vezes em que o grupo esteve no poder se revelou próximo da inépcia com sua apologia inútil da periferia na pobreza ideológica do conflito maniqueísta centro versus bairros que tenta, de forma burra e primária, alegorizar a luta de classes. Marxismo casca grossa.

16% do eleitorado

Curitiba representa pouco mais de 16% do eleitorado paranaense. Osmar Dias venceu nos grandes centros (Curitiba, São José dos Pinhais, Londrina, Ponta Grossa, Maringá, Foz, etc.), mas acabou perdendo nos pequenos municípios sempre com menor resistência ao poder central. Em todas as pesquisas estaduais já se percebeu que o interior é o calcanhar de Aquiles do prefeito curitibano. Se uma operação concentrada como a feita contra o vice Derli Donin mais o caso das terras de Osmar na Amazônia desgastaram o candidato no pleito anterior, uma exploração em cima do ''caixa dois'' - ainda que um tanto quanto forjada - pode desequilibrar. O ''Ferreirinha'' era todo forjado e emplacou. Ainda contou com o descuido do TRE na cassação por unanimidade de Requião ao esquecer de citar o vice Mario Pereira, ''litisconsorte necessário'' no processo.

Sempre os mesmos

A incompetência oposicionista no caso da capital é manifesta: o realejo das mesmas (e derrotadas) visões, a repetição das baixarias, o café requentado das denúncias, enfim, tudo aquilo que Curitiba se esmera em derrotar por tradição. E não cai a ficha dos opositores que, por sua falta de engenhosidade, acabam servindo a Beto como fizeram antes com Taniguchi, Lerner e Greca que fora da equipe originária nunca mais se elegeu, o que é paradigmático.

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