Aliança de risco
Uma das coisas claras da experiência curitibana em transporte coletivo tem sido a da atuação, por vezes sincronizada, entre o sindicato patronal e o dos trabalhadores. Quando as relações contratuais, pelo decurso do tempo, ganham caráter pactual, como ocorre na Capital, essa convergência de interesses se torna nítida em situações absurdas como por exemplo o de uma cláusula no contrato coletivo de trabalho que estabelece a distribuição de cestas básicas a todos os motoristas e cobradores e que interfere, de forma direta, como ganho indireto, no custo da tarifa.

Fui, durante meses, membro do Conselho de Transportes e testemunhei o grau de ajustamento entre os dois sindicatos como se aquela paz, conveniente e, por isso mesmo, conivente, estivesse pondo fim à luta de classes, como a imaginaram Marx e Engels. Uma encenação terrível: assembleias a céu aberto na praça Rui Barbosa, bem orquestradas e um ou dois dias de greve e, pronto, lá vinha o acerto.

Outros abusos
Há coisas incríveis no contrato de trabalho e que se espraia à planilha de custos: por exemplo, três por cento do montante como contribuição para o sindicato, cláusula avalizada pela Urbs e o Ministério Público do Trabalho. São amarras fortes demais, ainda que um tanto quanto heréticas em relação ao sentido público (que deve levar em conta além do empregado e empregador, mais o usuário) da concessão ou outorga. E se antes havia tensão na intimidade do sindicato obreiro com grupos do PT e outros partidos tentando quebrar a hegemonia estabelecida, hoje a tranquilidade é de tal ordem que o DEM, um partido nada próximo da linha proletária, elegeu um vereador da categoria.

O nível de assistência social e recreativa do Sindimoc, o dos motoristas e cobradores, é impressionante, o que assegura outros ganhos indiretos, aí incluída uma sede campestre para lazer da categoria. É evidente que com tudo isso nem deveria haver motivos para tensões. Só que quando chega o momento de acertar a tarifa ou de ajustar a data base a coisa complica.

Nem sempre o que é bom para patrões e empregados atende as justas aspirações do usuário, objetivo maior do serviço, que ao menos gostaria de saber como é essa planilha quase tão misteriosa quanto a Pedra da Roseta.

Engessamento
Se há algo a aprender no andamento da crise de Londrina uma das questões é de evitar que o poder concedente, a Prefeitura, fique refém ora de uma das partes e ora de outra ou até mesmo das duas. O engessamento do sistema, tal qual se dá em Curitiba, torna, na verdade, o usuário verdadeiro refém desse jogo de interesses. Tanto que Beto Richa manteve a tarifa congelada por cinco anos e só a reajustou depois que o erário já não suportava o subsídio, ainda que mascarado, do serviço. Como a pancada foi elevada demais ao saltar primeiro de R$ 1,90 para R$ 2,00 e em seguida, numa nova etapa, para R$ 2,20 houve o fato da redução de 600 mil usuários mensais por falta de poder aquisitivo. Conselho: matemágica é coisa de político e nada tem de racional.

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