LUIZ GERALDO MAZZA
Reflexões de Cícero
Não há como ajustar a forma clássica de pensar de um Marco Túlio Cícero aos padrões atuais pela impossibilidade, até diante do conhecimento que se tem das coisas, de sofisticar o que é essencialmente podre, decadente, como se vê no desdobramento da crise do Senado brasileiro e das tensões da aldeia. É caricato imaginar nossos pais da pátria no papel ciceroniano. Um texto sobre a corrupção e visando Caio Verres é aplicável a todas as situações, inclusive as nossas, suburbanas e paroquiais, do Paraná e do Brasil, quanto aos vínculos, aos braços extensos do poder na responsabilização dos que comandam.
''Os membros de sua equipe, escolhidos por você, eram suas mãos; os prefeitos, secretários, oficiais de justiça, médicos, advinhos, arautos eram suas mãos; quanto mais um deles estava ligado a você por parentesco, afinidade ou compromisso, tanto mais era considerado sua mão; aquela comitiva inteira, que fez mais mal à Sicília do que se fossem cem agrupamentos de escravos rebelados, era inquestionavelmente sua mão. Qualquer propina tomada por eles, não importa o destino, é preciso julgar que não somente foi dada a você, mas dada em dinheiro, nas suas mãos. Pois se esta defesa passar a ser válida- 'Ele não recebeu nada pessoalmente' - convém suspender todos os processos de extorsão e peculato. Afinal, não haverá nenhum réu, por mais culpado que seja, que não possa usar essa defesa.''
Manipulação dos sofistas
Num capítulo sobre ''estratégias'' leciona: ''Devemos agir com muita atenção, para não deixarmos de lutar pelo que pode ser obtido, e para não parecermos derrotados no que não obtivermos''. Esse pensamento, que trata da aparência e da persona, é de uma carta a Públio Lêntulo.
Sobre a variabilidade da opinião em carta igualmente dirigida a Públio dá uma aula didática e também prenhe de ironia: ''Não se deve permanecer apegado a uma mesma opinião quando as circunstâncias se alteram e as intenções dos homens de bem mudam, mas se deve adequar ao momento. Com efeito, tratando-se de líderes que dirigem o Estado, nunca se elogiou o apego eterno a uma mesma opinião; ao contrário, assim como, na arte de navegar, é prova de habilidade seguir o movimento da tempestade, mesmo que não se consiga alcançar o porto, e, assim que possível, mudando a posição das velas, ir em direção a ele, e é estúpido, em caso de perigo, manter o curso originalmente traçado, em vez de, adaptando-o, chegar finalmente aonde se quer, da mesma forma, se para todos nós, na administração pública, o objetivo deve ser aquele que tantas vezes foi dito por mim, a saber, a paz com dignidade, não devemos ficar sempre declarando isso, mas devemos ter sempre isso em vista.''
Dependendo, se adaptado aos nossos cenários e personagens, de quem está falando dá para perceber que esse refinamento e elegância mal se ajustariam à nossa pobre retórica, que passaria ao nível da caricatura. Infelizmente a sentença de que ''a palavra foi dada ao homem para dissimular-lhe o pensamento'' ainda é válida.





