Culto ao homem providencial

Quando me deparei com os números da pesquisa DataFolha sobre o terceiro mandato de Lula - 49% contrários e 47% favoráveis - não hesitei em colocar que aquilo era uma evidência de que no Brasil há uma opção pelo governo dos homens ante o governo das leis. Essa é uma questão a que Norberto Bobbio dá extrema importância no livro ''O futuro da democracia''. Países como os da América Latina de um modo geral se rendem ao ''governo dos homens'' como uma difícil e incontornável identificação com o populismo.

Apesar de vivermos uma democracia sequencial que passa por estilos diferentes como os de Sarney, Collor, Itamar Franco até chegar num patamar mais acurado com Fernando Henrique e Lula, que consolidaram a estabilização da economia livre numa sociedade aberta, é parte do nosso histórico a sagração do homem providencial. E volta e meia, felizmente não de forma permanente, vemos figuras como as de Sarney e Collor, especialmente, cultuarem esse imaginário seja com apelos aos fiscais de preço e apreensão de gado no pasto ou a do operador de aviões subsônicos ou fazendo corridas nas ruas de Nova York. É claro que mesmo os mais austeros não resistem a usar o boné do MST como Lula ou FHC traçando uma buchada de bode no Nordeste.

Democracia em queda

Em 2005 a mesma pesquisa rejeitava e de maneira fulminante a tese absurda da re-reeleição. É evidente que Lula se transformou numa fenômeno de popularidade não alcançado na história brasileira nem por uma figura carismática como a de Juscelino Kubitschek, um rompedor de paradigmas, de Jânio Quadros ou o mais envolvente de todos Getúlio Vargas. Em função, porém, desse acúmulo de pontos que Lula consegue nas pesquisas e da maneira extremamente hábil com que fala a linguagem do povo, às vezes até em heresias como a de considerar a crise mundial, no caso do Brasil, não mais do que uma ''marolinha'', o que foi afinal entendido com a boa intenção de manter o otimismo, como se de repente se transformasse num Norman Vincent Peale, do pensamento positivo, sem chegar aos exageros do Pangloss, de Voltaire, aquele do melhor dos mundos.

Identidade forte

Lula transmite densidade ao governo (69,8% de positivo e 23,9% de regular na última sondagem CNT-Sensus) e o seu desempenho pessoal vai bem além com a aprovação de 81.5%.

Fica visível, também, que Lula começa a transferir esse prestígio à sua candidata Dilma Rousseff que perdia de uma diferença de 29,4% em março e que caiu agora para 16,9% para José Serra. Levando-se em consideração que Serra é conhecido por 94,9% dos eleitores e apenas 72% conheceriam Dilma dá para crer que há todas as condições de reversão até porque na espontânea do instituto houve um empate técnico: Serra que tinha 8,8% em março caiu para 5,7% em maio e Dilma subiu de 3,6% para 5,4%.

Com esses números crescentes percebe-se que a avaliação do brasileiro é de traço bem superficial, assentado em ''sensações'', o que mostra que estamos mal educados para a democracia. Precisamos crer mais na lei do que no homem tido como providencial.

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