As primeiras-damas

Guardo a impressão de que na maioria dos casos a primeira-dama é melhor do que o marido politicamente. Menos por ser mulher e contar, em critérios fora de moda, com a condescendência que se lhes concede. Talvez o dado especial da sensibilidade e de atuar no nicho maternidade-infância, ora estendido aos da terceira idade, as isole dos entreveros genéricos em que o marido se envolve notadamente no campo da política e, é claro, o dos negócios.
A morte de Fani Lerner dá essa exata dimensão daquilo que é vocacional e a um só tempo institucional na atuação delas, as primeiras-damas. Era o caso, por exemplo, histórico de dona Darci Vargas, a fundadora da LBA, Legião Brasileira de Assistência, que por muito tempo teve quase dimensão ministerial nos seus afazeres. Como imposição da democracia participativa, descentralizadora, vieram as ações de voluntariado às quais Fani deu um toque testamental, bem ao seu estilo, o que já havia ocorrido no governo estadual com Débora Dias.

Assistencialismo e organicidade

Quando a ação é orgânica, tal qual se deu com Fani, no atendimento abrangente de crianças e mães, traduzido numa rede de creches com apoio comunitário e em intervenções diretas sobre a retirada de crianças em situação de risco das ruas não há como apodar, a não ser por má intenção, essa mediação, negociada com grupos organizados da sociedade e instituições , de ''assistencialismo''. Em nível nacional ninguém, neste aspecto, superou o que Ruth Cardoso fez em termos reais na doutrina do solidarismo.

Às vezes o alvo

O pragmatismo e o aeticismo transformam, não raro, as primeiras-damas em alvo de atuação rasteira como se deu quando marginais da política tentaram atingir dona Débora Dias por suas ações em favor do voluntariado. Quando eram mais violentas as campanhas orquestradas contra Moisés Lupion os radicais tiveram o cuidado de preservar a figura de dona Hermínia, que tinha uma imagem forte de intervenções nos problemas sociais.
É claro que no passado não havia como hoje, até em função das tecnologias novas, o nível de informação que permite dissecar um episódio, que se iniciou obscuro e que ganhou clareza aos poucos até a revelação plena de como se deu o acidente provocado pelo deputado Ribas Carli. A chamada ''história da vida privada'' acabou mostrando os amores paralelos não apenas de Dom Pedro I, mas também de Getúlio Vargas, Juscelino, Tancredo Neves, João Goulart e do próprio Fernando Henrique Cardoso com a história do filho fora do casamento. É neste caso, tanto quanto no de JK como no de Tancredo, que a figura da esposa se sobressai. Se o Paraná teve um paradigma em Fani, o Brasil o contemplou não apenas na obra de intelectual e de militante da causa social em Ruth Cardoso. Também os inimigos de Alvaro Dias fizeram-lhe um cerco por causa de uma filha fora do casamento. A intervenção de Débora foi no sentido de acolhê-la e para tanto obtendo a respectiva guarda com discrição e refinada classe.
Delas todas e de Fani em especial se viu alguém empenhado numa causa com a consciência de ir além do possível para aproximar-se do desejável, a utopia.

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