Ideologia & trabalho
Embora tivéssemos todas as razões para ver no trabalho o fundamento maior de avanços sociais especialmente com o PT e Lula, a impressão que temos é que tudo mais ou menos se repete, em termos concretos, como ocorria em passado distante com Getúlio Vargas, a mais forte expressão de populismo nacional. Da mesma forma que Lula governa com uma base aliada, que mais lembra a Arca de Noé, tão contraditórias e divergentes as alas que a integram, Getúlio foi mais astuto ao criar os dois partidos que lhe dariam sustentação: o Social Democrático, que nada tinha desse compromisso, ao menos nos seus significados filológicos e semânticos, porque abrangia grandes fazendeiros e comerciantes; e o Trabalhista Brasileiro que buscava acomodar os valores do proletariado urbano até para evitar que a área fosse de domínio do PCB, mais ativo naquele tempo do que nos tempos recentes, inclusive nas grandes greves e ações culturais.

Mais discurso
A pretensa prioridade, até como decorrência de uma visão humanística, ao trabalho é mais discurso do que práxis, ainda que todos os governos tentem demonstrar que estão simétricos a essas reivindicações. Dos fatores de produção - natureza, capital, trabalho e organização - é visível, ainda mais numa ordem ''financeirizada'', causa maior da crise atual, de que o trabalho é fator de exploração não apenas do empresário como dos políticos, posto como refém. Basta lembrar que na Alemanha nazista o partido no poder era o Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães. O reverso desse espelho nas várias formas do ''socialismo realmente existente'' eram os partidos únicos e que tentavam ser a expressão do trabalho como Vargas fez com o PTB.

República sindical
Uma das causas do golpe de 64 se assentava numa suposta resistência a uma república sindical que estaria se assenhorando do Estado, aparelhando-o. Ora nunca, na história brasileira, tivemos com os sindicatos, mais do que eles os sindicalistas, dentro do governo e até nas instituições novas como as tais agências reguladoras. Reproduz-se aqui, com as nossas tonalidades, o que houve em outros países que viveram experiências de transição. Esses organismos se mostraram, o mais das vezes, antiliberais e portanto pouco democráticos, ainda que entendam essa prática no fervor do assembleísmo. O que não quer dizer que não tivéssemos teóricos como Alberto Pasqualini, por exemplo, que souberam atribuir o verdadeiro apreço à liberdade.
A doutrina de Estado do Paraná, por exemplo, é fortemente influenciada pelo Movimento de Economia e Humanismo do Padre Lebret e que está presente no Plano Trienal de 1963 do governo Ney Braga e que busca um consenso com as várias representações da sociedade, mas enfatizando o trabalho como valor-chave na aposta em formas de organização como o cooperativismo e a cogestão na empresa na relação pactual, negociada, entre patrões e empregados. Obviamente milicos não o admitiriam porque, entre outras coisas, oficializava o Método Paulo Freire, altamente ideologizante, nos programas de alfabetização em massa.

mockup