O absenteísmo revelado

Aquilo que se temia, nas eleições de Londrina, aconteceu: a deserção de 20% do eleitorado que somada aos votos nulos e brancos chega a um terço do total em aberta contradição com avanços cívicos como o do afastamento de vereadores da legislatura passada e anteriormente na ação que derrubou Belinati.
Se houve um lugar no Brasil em que o justiça eleitoral esteve em aberta oposição ao que pregou nos instiucionais de arregimentação foi acertadamente em Londrina pelos incidentes processuais que marcaram a inelegibilidade de Belinati, a posteriori, e que ainda não se esgotaram, mesmo com a vitória de Barbosa Neto. O absenteísmo, que já era previsto, é o pior legado do pleito diante do qual análises sobre os seus efeitos políticos se tornam pouco reveladoras. Há mais a lamentar do que a somar.

Reequilíbrio

A vitória de Barbosa é compensadora para o senador Osmar Dias, que perdeu do prefeito de Curitiba e do seu irmão, Alvaro, no DataFolha: reaquece-lhe a imagem, embora a fantasia da ''grande aliança'', a que ajudou a eleger Beto Richa, esteja bastante esgarçada e perdendo o sentido. Aliás Beto ajudou muito mais a eleição de Osmar (e lhe rendeu a hostilidade de Requião) do que o peso da participação do senador na eleição curitibana.

Um caleidoscópio de 64

Hora de constatar coisas sobre o golpe de 1964, cujo número de vítimas cresce com a passagem do tempo: a intentona de 1935, fundamento radical no Exército para o combate ao comunismo, menos de quarenta anos depois estava esquecida. E por que? De lá para cá tivemos a derrubada de Getúlio e seu retorno eleitoral, a tentativa de afastar o presidente Vargas na República do Galeão e a sua saída com o suicídio que garantiria a frente popular que elegeria JK, o contragolpe de 1955 tocado pelos generais Denis e Lott, as tentativas focais de Aragarças e Jacaraeacanga por oficiais insurretos da FAB, a resistência de Brizola para garantir a posse de Goulart (essa teve seu ponto de audácia na distribuição de armas à população, o que é mais grave do que insurreição militar) e depois a quebra de hierarquia, arregimentação de sargentos e a inevitabilidade do golpe apoiado pelas marchadeiras com milhões de pessoas nas ruas e parte da frota norte-americana no litoral nordestino.
Ninguém mais celebra o 35 que estava esquecido antes dos 40 anos. A força dos acontecimentos o tornou menor como paradigma. Jango caiu porque se dizia em articulação uma república sindicalista que hoje a temos como nunca. Segurança foi a causa da rebelião e hoje o crime organizado deita e rola: depósitos de armas do Exército são pilhados, soldados entregam pessoas ao narcotráfico.
Em 64 a sindicalização rural, um direito, era vista como sublevação: Ligas Camponesas de Julião eram escoteiros perto do MST e Via Campesina de hoje. Estamos mais no fio da navalha do que antes. A anomia se espalha, com formas de corrupção endêmica, mais reveladas e conhecidas, do que combatidas.

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