Como a capital faz 316 anos, o que não é pacífico entre historiadores, jorram as análises sobre o modo de ser curitibano. Aliás há muito tempo a FOLHA se ocupa do tema não apenas pelo simples relato do que se dá em Curitiba como ainda em decorrência de avaliações mais aproximadas como as recentemente feitas pelo Caderno Especial sobre a diversidade de nossas tribos.

Há dois momentos, ambos focados pelo jornal, que negam radicalmente dois traços tidos como definidores comportamentais: um recusando a passividade bovina da gente da terra num evento que neste ano registra o seu cinquentenário, a tão badalada ''Guerra do Pente'' e outro revelando-lhe a dimensão poética e sobretudo solidária na alegria na nevasca de julho de 1975.

Outras manifestações de violência, algumas bizarras como a promovida por nacionalistas (ideologia da moda à esquerda, algo seriamente antinômico) contra um balão da Coca-Cola entronizado na rua XV na Semana da Pátria. Mais de cinco mil pessoas assistiram às tentativas do cartorário José Nociti do seu apartamento no Edifício Avenida com tiros de espingarda tentando furar aquele símbolo desagradável do imperialismo. Como não o conseguia, desceu com arco e flecha e convenceu o escultor Nelson Matulevicius a atirar contra o balão até que os bombeiros removeram o aparato e o povo cantou o hino nacional.

A neve

Se a neve de 75 parecia a pá de cal no ciclo cafeeiro ao norte pela geada negra que arrasou a produção, quando desde os anos 60 vivíamos a fase melancólica da erradicação, a sua ocorrência na capital foi um happening a que toda população se entregou sem restrições. Lembro dos executivos do Bamerindus trocando bolas de neve com flanelinhas e engraxates que nada tinha de qualquer belicosidade entre o capital e o trabalho. Uma interatividade raramente vista. O maná bíblico deslumbrava até os hemorroidários e aqueles que só veem sentido nas coisas se houver algo de político-ideológico. Aquilo hibernou na memória, um desvanescimento que se deseja eterno, permanente.

O pente

Assim como a neve levou a euforia às pessoas, a guerra do pente expôs um lado extremo de engajamento na conspiração e no tumulto. Havia o concurso oficial do ''seu talão vale um milhão'' para levar o povo a pedir notas fiscais e evitar a sonegação. Um cidadão entra numa loja e compra um pente de oito cruzeiros quando o regulamento exigia um mínimo de cinquenta. Houve discussão, briga e um miliciano aposentado apanhou bastante o que incendiou a turba que passou a quebrar lojas de árabes. Foram três dias de sítio, a PM recebeu cartão vermelho das massas e foi indisdensável a intervenção do Exército com carros blindados. Um deles brecou na esquina da XV com a Marechal Floriano porque as lagartas se soltaram. O oficial, empertigado em seu posto sem poder mover a máquina de guerra, quando o curitiboca, solícito, pediu licença ao oficial para empurrar o tanque. Não se sabe se era uma transgressão, um ato de gozar a autoridade ou realmente de cidadão prestante. Isso é Curitiba.

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