LUIZ GERALDO MAZZA
Nutrientes da política
Tal qual se dá com o judô em que o atleta vale-se da força do adversário para subjugá-lo, os políticos, de um modo geral, quando colocados, sob o fogo das denúncias, podem dela nutrir-se. Às vésperas do 24 de agosto de 1954 o Brasil, embora a aura do Vargas estadista, parecia estar ao lado dos que se indignavam com o atentado a Carlos Lacerda e a morte do major Rubens Vaz. Quando se teve a notícia do suicídio e da Carta Testamento houve uma reversão: o que era maldito, ao menos por uma boa parte da sociedade, notadamente da Aeronáutica, passou a ser sagrado. É uma velha condicionante brasileira, a do vitimalismo.
Aqui no Paraná os casos de reversão mais fortes se deram justamente com o atual governador Roberto Requião. Na eleição de 1990 o TRE o cassou por unanimidade, quando já tinha cumprido boa parte do mandato.
Descuido fatal
Um descuido fatal da justiça favoreceu o governador cassado que contava nas ruas com as ações do vice Mário Pereira e do seu secretário de Agricultura, Osmar Dias, que tocavam as mobilizações: não houve a cassação e muito menos a citação sequer do vice, afinal um ''litisconsorte necessário'' na demanda. Como se viu agora nos casos dos governadores cassados tanto da Paraíba como o do Maranhão.
Além dos dribles no ''meirinho'' para ganhar tempo, essa falha garantiu a Requião a sua derradeira vitória no STF por ''perda de objeto''.
Crescer na adversidade
Está muito distante do quadro de circunstâncias que cerca o governador a hipótese de um papel shakespeareano como Timon de Atenas ou Rei Lear, já que nele não se ajusta igualmente o MacBeth, posto que com jeito de McDonald, isso quanto ao apetite, especialmente de ovas de tainha. O fato é que cresce na adversidade como se ela se constituísse no seu plancton vital.
Ocorre que a oratória candente não muda, ainda que às vezes se torne menos ácida e agressiva e ganhe aquele tom de sermão, os dois dedos para o alto, como quem faz a homilia de um púlpito. Mas as denúncias ganham corpo e alguma estruturação quanto aos interesses familiares: se acolhidas as colocadas contra o irmão Eduardo e a primeira dama, Maristela, sofrerá muito, mas fará cair o peso de sua ira contra os que se regozijarem com os fatos.
Não se pode dizer que se dê mal na justiça: perdeu algumas pendências, todavia faturou outras como em alguns aspectos da disputa com o Itaú e em outros foi salvo pelo gongo do acordo como o havido em torno da Usina Térmica de Araucária que arrebentaria o erário em mais de US$ 800 milhões na Corte Arbitral de Paris.
Como o governador tem um número expressivo de seguidores a imagem tanto do perseguido como do justiceiro, quase com as dimensões de um mito, um Prometeu acorrentado, lhe dão força para sustentar o papel. E quantas demandas a mais a fúria verbal se intensificará até que venham as sentenças como aquela que um juiz ofendido, hoje desembargador, Sérgio Arenhardt, lhe aplicou em processo indenizatório. As dos desvios da TV Educativa não o preocupam tanto que já o transformaram num clássico reincidente específico e genérico.





