LUIZ GERALDO MAZZA
O choque do passado
Um dos best-sellers dos anos sessenta foi o de Alvim Toffler ''O Choque do Futuro'' que avaliava o salto da tecnologia na história da humanidade e que precederia ''A Terceira Onda'' também com o mesmo direcionamento. A queima de etapas foi, de fato, marcante, embora estejamos vivendo um momento de crise mundial e cuja duração não se pode imaginar.
A ameaça aqui, e especialmente na política, é a presença marcante de algo que poderia ser descrito como ''choque do passado'' que felizmente não se dá na economia e apenas institucionalmente traduzida na política. Não há exemplos mais fortes do que os da eleição de José Sarney e Michel Temer para as duas casas do Congresso bem como o mais recente de Fernando Collor de Melo para a comissão de infraestrutura do Senado. Para quem viu na eleição de FHC e de Lula algum sinal de modernidade está aí a evidência do obscurantismo e da supervivência do coronelato, aliás visível aqui no Paraná na dinastia Requião e na possibilidade nada remota de dois irmãos, os Dias, disputarem o governo.
Exemplos marcantes
Em 1950, momento importante da democracia, com a vitória de Getúlio Vargas e sua inserção como estadista, o governador eleito no Paraná foi Bento Munhoz da Rocha. Na gestão estadual tínhamos, em certo momento, Bento no Executivo, o criminalista Laertes de Macedo Munhoz no Legislativo e o constitucionalista José Munhoz de Mello, todos ligados por parentesco, primos. Anos mais tarde, sob a ditadura, Ney Braga (que havia sido governador em 1960) volta à chefia do Executivo num pleito indireto. Esclareça-se que Ney era cunhado, em primeira núpcia, de Bento que o lançou na política como Chefe de Polícia e em seguida, eleito, prefeito da Capital. Pois bem: num inspirado instante era governador Ney Braga e seu parente o deputado Fabiano Costa Cortes, presidente da Assembléia, e outro chefiando o Judiciário, Marino Bueno Brandão Braga.
Patriarcado rural
Tanto no primeiro caso como no segundo esses personagens eram figuras marcantes no seu campo de atuação. Talvez essa sequência se prestasse como ilustração às pesquisas do sociólogo Ricardo de Oliveira sobre o poder e a genealogia abarcados na obra ''O silêncio dos vencedores''. Há algum exagero nas conclusões do ensaio já que não se pode incluir numa listagem de nomes de raiz os de Paulo Pimentel do mundo pioneiro como José Richa, Alvaro e Osmar Dias ou ainda os de filhos de imigrantes como Saul Raiz e Jaime Lerner, ambos uma expressão forte, já que de origem pobre, da mobilidade social.
Jamais esses enlaces parenterais serviram de obstáculo ao progresso: tanto Bento como Ney são artífices do Paraná moderno como o foram em outra escala Manoel Ribas e Moisés Lupion, duas expressões campeiras abertas à industrialização.
Aqui a oligarquia soa inaceitável: a sociedade complexa vai removendo sedimentos, o que não ocorre em outros pontos do país, especialmente o nordeste. A força de um Renan Calheiros é prova inconteste na reação à sua cassação na presidência do Senado quando se valeu da renúncia e depois a coordenação da vitória de Sarney e agora a de Collor.





