A disputa bíblica
Osmar Dias é um candidato irremovível como pedra de prefeitura. Nem o Toni Garcia, apesar das artes do saudoso Jamil Snege como seu marqueteiro na disputa senatorial com José Eduardo Andrade Vieira, o afastaria como demoliu a rocha imensa que havia em seu caminho na propaganda e que nem de longe lembrava a poética pedra de Drummond de Andrade. ''No meu caminho tinha uma pedra// tinha uma pedra no meu caminho.'' Pois há duas pedras no caminho de Osmar Dias: o Beto Richa, com quem tenta manter aceso o acordo, e que pode vir a ser convocado pelo PSDB para dar respaldo regional a José Serra e num plano mais próximo, o mano mais velho, Alvaro Dias, um dos preferidos de Requião. Irmão enfrentar irmão não é novidade no Paraná: numa eleição para prefeito de Curitiba, o irmão mais velho, Roberto Requião, indicou o Maurício, hoje no Tribunal de Contas, para a disputa pelo PMDB e o outro, desgarrado e com ambição suficiente, o Eduardo, saiu pelo PDT, como disputante.

Ausência de quadros
A pobreza de quadros no Paraná é um fato, apesar das declarações de Lula de que aqui poderia apoiar Osmar Dias, do PDT, ou um dos ministros da terra, Paulo Bernardo ou Reinhold Stephanes. Mérito inegável o de desvelar a condição óbvia de Stephanes como um quadro de primeira grandeza e o político da terra que mais ministérios ocupou, inclusive em área complexa como a da previdência social, na qual exercitou as primeiras ações no sentido de racionalizar o setor, o que mexeu com interesses pesados.
O governador entrou na onda do presidente e sugeriu os nomes de Beto Richa, Alvaro Dias (com quem já teve disputas centradas em ''acordo branco'') e o do seu vice, Orlando Pessuti, a quem mimoseou com o epíteto de ''Gafanhotão''.
Com o estreitamento dessa listagem chegaríamos ao risco de um embate e de segundo turno entre os senadores Osmar e Alvaro. Lastimável porque haveria, inevitavelmente, algo mais dramático, embora menos burlesco do que a prática escancarada do nepotismo de Requião e, numa menor escala, de Beto Richa.

Reducionismo afrontoso
No passado no Rio Grande do Norte, dos anos quarenta para os cinquenta, havia a família Rosado, cujos integrantes tinham seus prenomes em francês em algarismos: Dezessete, Dezoito, Dezenove e assim por diante, muitos deles com mandatos. Muitos ficavam chocados com o sentido oligárquico que não captávamos aqui no revezamento das famílias Camargo e Munhoz da Rocha, como se a patologia não nos atingisse. Tanto Osmar como Alvaro Dias são expressões do pioneirismo e de uma etapa em que não havia espaço mais para a genealogia por exemplo, tema do ensaio de Ricardo de Oliveira. Já que a Bíblia foi invocada como alegoria espera-se que Alvaro e Osmar não reeditem, nem de longe, Caim e Abel e se houver preferência por algo mais ameno que se invoque a disputa da primogenitura entre Esaú e Jacó ajustada em torno de um prato de lentilhas que, segundo lendas e susperstições brasileiras, praticadas no fim do ano, pelo menos dá sorte, quem sabe em favor até do perdedor porque a herança que está aí é pesadíssima, mais de uma década perdida.

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