Jacaré sob a cama

Essa estória de que só teremos ''marolinha'', como sugeriu Lula, em relação à crise, que só se tornará nítida lá por março no fim do primeiro trimestre, é, de uma forma consciente ou não, admitida por nossos prefeitos, como se viu em seus discursos de posse com muitos deles prometendo cortar fundo as despesas de custeio. Beto Richa estabeleceu o parâmetro de 10% a 15% de economia e que com o seu sistema de gestão, sob acompanhamento, premiaria os gênios que fizessem mais. Aparecer não é fazer, mas no Brasil se confundem as coisas.

O prefeito de Curitiba e os das demais cidades, que assim trataram o tema sem fazer os cortes devidos nos quadros secretariais e na relação de aspones com remuneração e status equivalentes, estavam incidindo na velha tradição brasileira da dicotomia entre discurso e prática. É visível que manter o excesso de secretarias já é uma evidência de que não haverá economia. Todavia como o prefeito de Curitiba promete mudar o pessoal se não houver bom desempenho é possível que, alertado pela evidência da crise, faça lá na frente esse corte de tantos penduricalhos que lembram enfeites de escola de samba e de baixíssima utilidade.

O fulgor da anedota
A crise virá fatalmente como já há indicadores claros na queda de nível de atividades em setores de alta empregabilidade como as montadoras, essas ainda socorridas pelo governo, e a indústria da construção civil. A anestesia, ainda presente no clima das festas, se tornará mais intensa lá pelo Carnaval como é da nossa tradição.

Tudo isso lembra a anedota manjadíssima do cara que vivia perturbado com a presença de um crocodilo em seu quarto. Quando estava no melhor do sono vinha aquela pulsão em meio à vigília: os olhos verdes, ofuscantes, do réptil embaixo da cama. Aí fazia todos os esforços possíveis para remover aquilo que pela persistência tinha tudo de paranóia maníaco-depressiva. Então havia a romaria ao pisquiatra e a dosagem extrema de soníferos e relaxantes. Dava uma melhorada até que a necessidade de olhar embaixo da cama a visão coriscante do olhar crocodilhesco e magnético.

Lição pedagógica
E tudo se repetia como na tragédia grega quando o herói tenta enfrentar o seu fadário: deixou de ir ao médico e este acreditou que uma das suas mais recentes drogas, até então não liberadas no Brasil, teria levado o paciente à sua cura. E por curiosidade foi até a sua casa para ver como o cliente se encontrava: ao apertar a campainha foi alertado por um vizinho que o morador daquela casa tinha falecido de forma estranha comido por um jacaré.

Não se enfrenta o tipo de crise que teremos com discursos e baseados em algo desligado da prática: as ações de governo como as nomeações de 37 mil barnabés federais, o aumento das vagas de vereadores, o tarifaço do governo paranaense são evidências de que como no ''Cândido'' de Voltaire as coisas estão no melhor dos mundos para esses agentes públicos. Cortar verba de custeio sem mexer nessa floresta secretarial aqui e no governo estadual e ministerial na União dá em coisa alguma. Os olhos verdes na escuridão não são os do Alan Delon, o bonito ator francês, mas os do crocodilo real.

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