LUIZ GERALDO MAZZA
Os 40 anos do Ato 5
Fez-se muita comemoração sobre os 40 anos do Ato 5. Há algo relativo à política da terra que não foi rememorado. Por exemplo: embora o paranaense Ivo Arzua, da Agricultura, tenha assinado o édito na outra ponta da corrente, os senadores Ney Braga e Magalhães Pinto firmaram nota contrária. Tanto Ney era uma expressão dos ''pombos'' num momento de arranque dos ''falcões'' como o mineiro se constituia numa liderança civil capaz de disputar a presidência.
Aliás, desde o início do golpe (ou revolução, segundo o brazilianista Renê Dreiffus, já que teria arregimentado civis em mobilizações de milhões de pessoas nas ruas) havia uma disputa entre Magalhães Pinto, o deflagrador da marcha militar, e Carlos Lacerda como postulantes presidenciais.
No Paraná, rompendo com a tradição de acomodação e mediocridade, o nome de Ney Braga como candidato presidencial contra Costa e Silva foi levado a uma convenção de traço regional da Arena. E nela Ney teve votação muito superior o que também desencadeou uma onda, mais à direita, de militares, muitos da reserva, que tentavam enquadrar o ex-governador em processos, alguns deles até mesmo na Auditoria de Guerra.
Limpando a barra
O governador de então, Paulo Pimentel, embora devesse a sua eleição em grande parte ao antecessor, tomou posição clara em favor de Costa e Silva e nem todos os neystas de ''carteirinha'' votaram no seu líder. Lembro do voto do coronel Alípio Ayres de Carvalho, o criador genuíno do planejamento no Paraná, ele conhecedor da sua corporação, votou em Costa e Silva.
O Paraná estava representado no governo pela figura de Ivo Arzua (esse um caso raro de honestidade extrema na política que transforma em milionários assessores de segundo escalão e que foi prefeito de Curitiba, ministro, presidente da Telepar) em quem os militares viam uma solução para o governo estadual.
Essa ''contestação'' ao Costa e Silva deixou a turma de Ney Braga num período de vacas magras e que tivera esplendor com Castelo Branco e voltaria a tê-lo com Ernesto Geisel. Algumas homenagens foram prestadas ao presidente em função daquela emulação que não poucos lamentavam e uma delas foi a concessão do título de doutor ''honoris causa'' pela Universidade Federal do Paraná em 1967, um anos antes do traumático Ato 5.
O blefe e a bravata
Da mesma forma que os sapatos atirados contra Bush não passam de uma bravata, não se pode ver o famoso discurso do deputado federal Márcio Moreira Alves fora dessa perspectiva, a de um blefe provocativo e sem profundidade de sentido para levar o governo à fúria. Márcio pediu que as mocinhas recusassem a dança com militares e isso deu margem ao pedido de cassação que, negado pela Câmara, levou à edição do Ato Institucional número 5. Assim um incidente menor serviu como detonador da revolução dentro da revolução.
O jornalista iraquiano virou um herói e aqui o também jornalista, já na condição de parlamentar, ampliou, sem desejá-lo, o ciclo repressivo.





