LUIZ GERALDO MAZZA
Preceptores de plantão
Já não temos como em passado recente nos estafes governamentais aquele tipo de intelectual voltado à filosofia e aplicado na arte de pensar. É que hoje a gaiatice dos marqueteiros - e isso é visível em todos os níveis de gestão - se sobrepõe tanto ao conhecimento especializado como ao do generalista. O ideal é que o governante tenha um pouco disso como se deu aqui no Paraná com alguns deles como especialmente Bento Munhoz da Rocha Neto, Pedro Viriato Parigot de Souza (um pensador de resultados, de intervenção na realidade) e o último deles certamente essa figura humilde e brilhante de José Hosken de Novaes.
Claro que todo governante busca sugerir que faz algo articulado em cima de uma doutrina, de uma axiologia (a ciência do valor) para dar densidade ao que supostamente estaria fazendo. Há gestores não intelectuais como Ney Braga e Jaime Canet Júnior que contavam na equipe com pessoas que iam muito além do mero redator de textos, articulador de discursos. Do time de Ney havia Norton Macedo e até um filósofo como Ernani Reichman como Paulo Pimentel contou com a reflexão permanente do seu Chefe da Casa Civil e meu antecessor na cadeira 20 da Academia Paranaense de Letras, Samuel Guimarães da Costa. Em Jaime Canet tínhamos a figura exponencial de Belmiro Castor que já cuidava do planejamento desde Parigot de Souza.
Filósofos, dos bons
Na administração Adolpho de Oliveira Franco, de transição entre Munhoz da Rocha e a volta de Lupion, havia um dos grandes nomes da filosofia brasileira, paranaense do norte pioneiro, Fausto Castilho, mestre da USP e Unicamp. Era um assessor especial do coronel Botinha, Paula Soares, e surpreendeu Curitiba nos anos cinquenta, século passado, com cursos de extensão sobre Hegel, Husserl e Heideger. Posto que ocupava: diretor da Biblioteca Pública. Já quando Ney assumiu o governo nomeou para a Biblioteca o inesquecível Lamartine Correa de Oliveira, gênio do Direito e da Filosofia. Lamartine deu um salto da postura católica, jamais foi um integrista, para as ações sociais mais fortes. Lembro que em 1954 numa Semana de Estudos Jurídicos ele enfrentou com brilho todos nós, da então esquerda acadêmica, com a defesa da tese ''Marxismo e Cristianismo'' em que achava que não havia alternativa geopolítica fora da aliança com os norte-americanos. O baixo clero tomou conta das universidades e isso contagiou o nível da ''inteligentzia'' disponível. A simplificação do propagandismo como aporte da ação política tirou profundidade da reflexão, mas deu agilidade à forma de vender o administrador como produto.
Cadastro de QI
Em várias oportunidades tenho sugerido que no núcleo estratégico dos governos haja uma espécie de cadastro da nossa inteligência. É incrível como ignoramos as coisas: semana retrasada esteve em Curitiba Newton Carneiro Affonso da Costa, um dos maiores filósofos matemáticos da América e que dá aulas de pós na Federal de Santa Catarina, onde também o nosso geólogo João José Bigarella prepara mestres. E ainda neste fim de semana pintou por aqui o escritor Roberto Mugiatti, um conhecedor profundo do jazz, aqui nascido, e que poucos se ligaram na sua presença e importância.





