LUIZ GERALDO MAZZA
Mais tentativa
Quando havia o Fórum Social, oposto ao Econômico de Davos, o Rio Grande do Sul se habilitou a sediar aquele evento, no inicío com bons resultados e após com aquela sensação de tédio que acompanha o repertório repetitivo em nome do alternativo ao ''stablishment'' e que nada cria. O Paraná tentou surfar em cima dessa onda e levou até a capital dos gaúchos a pregação fundamentalista contra os transgênicos acenando com a ''soja pura'', algo inexistente até porque a convencional tem mais carga agrotóxica do que a condenada e seria impensável imaginar o produto ''orgânico'' pela impossibilidade de ajustar-se à economia de escala. Depois encenou um encontro em nome do ''social'' que não teve sequer o alarido da ''escolinha'' das terças-feiras.
Pois agora o nosso governador quer um exame por supostos sábios da crise mundial para avaliá-la e apontar alternativas. A Carta de Curitiba, que pode vir a ser elaborada nos debates e reflexões entre 7 e 11 de dezembro, fará certamente a condenação do neoliberalismo, neste momento na UTI, e pregará a necessidade do Estado regulador e até interventor, embora o exemplo local não seja lá assim tão operativo como se vê nos portos, na recente desqualificação da Copel como empresa sustentável e nos péssimos serviços de saúde, educação e segurança inconfrontáveis com os de outros centros nacionais.
Do ridículo ao temerário
O senso do ridículo não é parâmetro adequado na política. Jânio Quadros se tornou imbatível comendo sanduíche no meio-fio da calçada e usando uniforme da CMTC, a companhia de transportes de São Paulo, para ganhar popularidade e como presidente inundou o país com decisões como a de proibir briga de galo. Há assim uma certa convergência entre o agir temerário e um sentido de afirmação, de coragem, de justiceiro nas intervenções do nosso governador. Se até a Albânia já serviu, embora seu estado de atraso, como farol para a humanidade, o Paraná é um cenário bem mais razoável por alguns fatores que o identificam como a força do seu agronegócio, a diversidade de sua população com um timbre multiculturalista e da sua economia e sociedade.
Já em sua segunda gestão, Requião empenhou-se em contestar o modelo econômico do país, sempre em meio a palavras de ordem e conceitos vagos, valendo-se de críticos e ex-aliados de Lula. Se no plano nacional Lula tivesse adotado saídas como as aqui aplicadas - desrespeito sistemático a contratos, tensões e conflitos por método em cima de multinacionais - teria levado o risco Brasil ao espaço sideral.
Ironia possível
O mais curioso seria que nessa ''brainstorming'' de repente as atenções se voltassem para Curitiba para ver se ela é mesma esse padrão de soluções urbanas que vários países e unidades brasileiras cultuam como um modelo e tanto que até convenções da ONU sobre meio ambiente foram aqui realizadas em função desse culto. Como essa visão idealizada se trata de marketing muito bem sucedido, mas altamente dissimulador, daria para perceber que entre a cidade construída pela manipulação de mentes e corações, ainda que falsa, é bem mais consistente do que a perspectiva de sair daqui nesse fórum algo que não seja a repetição de clichês em torno da profecia dos fatos consumados.





