LUIZ GERALDO MAZZA
A carência fatal
Aristóteles sugeriu que a carência fatal do homem era a de não ter asas. Dá para perceber que a nossa crise ainda é de caráter filosófico e claramente não metafísico. Diante de dois acontecimentos, um localíssimo, o da segunda chacina em menos de um mês em São José dos Pinhais, e outro universal na crise da Bolsa, é possível ver que a relevância está no fato aparentemente menor e isso porque já se transformou em rotina do cotidiano brasileiro, enquanto que o outro, a despeito do seu impacto, é uma crise cíclica do capitalismo, talvez com repercussão semelhante ao ''cracking'' de 1929.
A banalização das execuções como as que ocorrem todos os fins de semana na Região Metropolitana e em pólos como Londrina e Foz do Iguaçu e que tiveram a revelação de que Guaíra é hoje o epicentro do crime organizado é mais forte axiologicamente (em termos de valoração) do que a convulsão da Bolsa. É que essa é mais contornável, por incrível que pareça, do que a outra e revela a impotência do aparelho estatal, como se estivéssemos diante de algo para o qual inexiste solução. No caso da crise e com a sequela possível de quadro recessivo ainda se crê no remédio da intervenção estatal repetindo o que houve em 1929 com a resposta do ''New Deal'' de Franklin Delano Roosevelt; no das chacinas a sociedade metabolizou como patologia endêmica esse massacre e para o qual o poder estatal, até por sua permeabilidade à corrupção e sobretudo à ineficiência e a infiltração do crime organizado, dá poderosa contribuição.
Humor impotente
Se com a Bolsa é possível fazer humor ao chamá-la, no quadro atual, de ''pochete'' pela perda do gigantismo e a derrubada do mito de que a ''mão invisível'' do mercado tudo ajusta, nem os mais mórbidos criadores da piada mundo-cão teriam o que fazer para assimilar as chacinas que apenas desvelam o corpo minado da sociedade por uma doença incurável justamente porque perdemos todas as perpectivas de tratá-la preventivamente. Para ilustrar, basta referir à circunstância de que a escola, um dos filtros possíveis, está tomada, em grande parte, pelas gangues e o uso generalizado das drogas pelos jovens. Como esse quadro se reproduz - em escala geométrica - as perspectivas de reversão se tornam cada vez mais escassas e se afunila o espaço da esperança.
É claro que a crise da Bolsa excita os ideólogos, tanto que os defensores do Estado provedor se agitam e se excitam para declarar a morte do capitalismo. Recuperam Keynes, que sempre foi uma salvaguarda dos intervencionistas e que tinha em John Kennet Galbraith, um liberal consistente, mas que aceitou (imaginem a heresia) fazer o papel de controlador de preços nas ações para conter a recessão. Já vi esse filme antes: quando dos choques seguidos do petróleo e a estruturação da Opep, o cartel dos produtores, o escritor de esquerda Michael Harrington chegou ao extremo de profetizar o fim do sistema com a mudança substancial na correlação de forças. Título da obra: ''O Crepúsculo do Capitalismo''. E o anunciado caos simplesmente não houve e muito menos as sete irmãs perderam o brilho como constelação de poder e força. Já o caso das chacinas é bem pior, ainda que aparentemente mais fácil de encarar.





