Ainda a identidade

Se o nosso forte é justamente a diversidade como Munhoz da Rocha tantas vezes destacou e especialmente Wilson Martins em ''Um Brasil Diferente'', há necessidade de apurar, até que ponto, essa permeabilidade a gentes de todo o Brasil e do mundo se insere em nosso modo de ser. Vários governos, como aliás é uma tendência natural, buscaram apropriar-se dessa circunstâncias como simétricas às suas virtudes de coesão e identidade.
Em função de tudo isso abriu-se no facilitário da sociologia de bolso saques publicitários como o de que o Paraná seria a ''terra de todos nós'', mas não apenas isso como incursões no campo da sociografia como a do encontro do chapéu de couro com a bombacha, uma referência literária ao fato de haver no oeste em Céu Azul esse amálgama gaúcho-nordestino.
Os acontecimentos vieram demonstrar que os desejos dos slogans e das criações publicitárias nem sempre se ajustam à realidade: em Céu Azul a sede tomada pelos gaúchos começou a perder espaço para o distrito de Vera Cruz do Oeste que acabou assumindo a hegemonia da região acalmada com um plebiscito que lhe concedeu autonomia.

GUERRA HERÁLDICA
Em 1988, governo Alvaro Dias, o secretário de Cultura, Renê Ariel Dotti, instituiu um Grupo de Trabalho para rever o símbolo heráldico do Paraná. O mestre Ernani Straube, um dos maiores especialistas no assunto, propôs uma série de mudanças no símbolo, inclusive colocando o semeador em lugar do lavrador com a sega à mão. Isso aliás era alvo de uma piada de Joffre Cabral Silva que dizia que aquele cidadão estava com a foice à mão para cortar a cabeça do primeiro paranaense, metido à besta, que deseje aparecer. Sátira a outro tema, constantemente pinçada pela sociologia de circunstância, o da célebre autofagia. Que no fundo se houvesse, com a intensidade alegada, até seria um benefício para uma sociedade normalmente acomodada como a nossa.
Aliás em matéria de heráldica o Beto Richa, prefeito da Capital, inovou: depois de acrobáticos exercícios de simbologia, o derradeiro deles de autoria do Manoel Coelho, arquiteto e designer, um dos maiores do Brasil, decidiu restabelecer a simbologia de origem que soa estranha aos hábitos nacionais, inclusive o do Paraná em que a posição das estrelas na constelação do Cruzeiro do Sul é a do momento em que Requião assumiu o governo pela segunda vez. Estava escrito nas estrelas.

AFIRMAÇÃO
Muito mais afirmativo, em termos de identidade, é o que Londrina, de vez em quando, apronta como quando deflagrou o movimento ''Pés vermelhos, mãos limpas'' e derrubou um prefeito, graças à mobilização que uniu Igreja, OAB, Maçonaria, instituições liberais contra o que estava ocorrendo na cidade. E esse espírito é presente nas recentes atuações do Ministério Público e do Judiciário no afastamento de vereadores. E há raiz nisso, pois mesmo no regime militar, a despeito de todas as hostilidades, elegeu por várias vezes seu prefeito e inclusive senadores de oposição como Richa, Leite Chaves, Alvaro Dias.

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