As metamorfoses
O Brasil inteiro se debruça abismado com a virada da novela ''A Favorita'' que desbancou uma suposta vilã, Donatela, ora transformada em vítima como se dava com a Flora, ora documentada assassina. Há quem deseje uma linearidade de tal ordem nos personagens que essa transformação, já no segundo dia, depois do flagrante de um assassinato praticado por Flora, a audiência teria caído cinco pontos. No palco da política nós temos seguidamente esse transformismo dos atores até porque os que se mantêm aferrados a uma linha comportamental correm o risco da fadiga do material, da entropia: Belinati com seu populismo, Alvaro Dias com seu moralismo, Requião com seu autoritarismo.

Do Raul a Rita Lee
O Raul Seixas, citado outro dia pelos políticos, com a opção pela metamorfose ambulante, é um referencial mais cabeça do que o mutante da Rita Lee. E menos é claro do que o da criação de Kafka em torno do Gregório Samsa que se vê, aos poucos, transformado numa barata. E ainda -isso para sofisticar e adornar como carro alegórico de escola de samba- menos do que Ovídio, o clássico, que nas Metamorfoses (XV, 234), lecionou ''tempus edax rerum'' que traduzido é o tempo devorador das coisas.

A tevê como a política, pelo menos a aqui praticada, está longe de ser arte. Como indústria cultural, tal qual a publicidade, ela se vale e até manipula valores estéticos como qualquer forma de comunicação. Tanto o teatro como o cinema são ricos nesse malabarismo cênico da novela e que interfere na forma como o público o enxerga.

Toque de Prestidigitação
Lembro (dos tempos que frequentava cinema e cine-clubes) de um filme do Clouzot ''As diabólicas'' em que no final um rosto lembrando o da personagem, como ressuscitada, colocado em destaque, que havia sido assassinada no ápice da trama dramática. O crítico Armando Ribeiro Pinto, um dos melhores que o Brasil já teve no nível quase do Paulo Emílio Salles Gomes, não se conformou com o fato de aquela imagem, posta em ''íris'' e portanto sublinhada, tivesse rompido o clima policial com algo que entendeu como próximo de uma gozação com o público espectador. Armando, que tem no nosso Carlos Eduardo Lourenço Jorge, um continuador desse ofício nada fácil da exegese fílmica, era radical no seu cartesianismo. Mas a arte, aí como no teatro de Luigi Pirandello (''Assim é se vos parece'') ou Shakespeare (há um Hamlet metafísico e outro edipiano conforme o intérprete, se Lawrence Olivier ou Vitório Gasmann) tem esse lado multifacetado, lúdico e de prestidigitação (essa uma façanha indespensável, por exemplo, ao exercício da política).

Personas em Política
Ainda neste fim de semana tivemos uma reação do desembargador Jorge de Oliveira Vargas ante a crítica de Maurício Requião que chamou de estúpida a sua interpretação em mandado de segurança. Vargas reagiu dizendo que se Maurício a repetisse na sua frente o prenderia por desacato: a veemência em Roberto é mais articulada do que em Maurício e no Eduardo, lá do Porto de Paranaguá, mas o ator principal não pode ser substituído sem perda da qualidade do espetáculo. De qualquer forma que ociosidade nervosa! Um juiz chamar um ofensor para a briga é realmente um caso de metamorfose.

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