Excesso de individualismo
  No Brasil, o coletivo não se sobrepõe ao individual e isso se percebe na raiz da representação popular, o partido político. Nessas derradeiras horas que nos separam do final das convenções tudo se torna nítido: nossos partidos, que só funcionam nas eleições, têm donos, verdadeiros régulos que agem em nome não de uma parte, mas de toda a comunidade.
  Negociação para formar a base aliada de Beto Richa é traduzida nesse fosso entre a sociedade e o partido. É evidente que o fenômeno é nacional e atinge até o mais orgânico deles, o PT, cuja mística perde o halo não apenas em função das roubalheiras e do abandono do compromisso ético, todavia também no fato de ser governo e aí sofrer um inevitável processo de entropia.
  E esses reinóis, às vezes, nem votos têm, o que já foi mais do que demonstrado nas urnas como é o caso clássico dos dirigentes municipal do PMDB e o estadual do Partido Verde. Outros têm votos como os irmãos Carlos e Íris Simões, pouco lhes importando a legenda nas quais se abrigam. Daí a pobreza dos nossos embates políticos: o indíviduo, marca do tempo em que vivemos, se sobrepõe a qualquer valor que vise agregar o conjunto das pessoas em torno de uma idéia, de uma ideologia (há cada vez mais a impressão de que não a história, mas ela que se esgotou) e de uma doutrina, de algo enfim que venha a caracterizar um denominador comum.
O CASO ALVARO O fato de o senador Alvaro Dias estar contestando a noção de que a frente em torno de Beto Richa é uma etapa de um processo voltado para 2010 é uma reafirmação disso porque a resistência esboçada é no sentido não de preservar algum valor comum, mas uma aspiração pessoal até porque sempre foi e será candidato. Obviamente essas postulações ao serem verbalizadas tentam se ligar a um fundamento doutrinário. A trajetória de Alvaro como a da esmagadora maioria comprova essa exasperação do individualismo no revezamento que todos fazem de legendas. Alvaro chegou a ser expulso do PSDB por haver pedido uma CPI (o que não mancha, mas eleva a sua biografia) contra FHC. O exemplo oposto de Requião, que sempre permaneceu no PMDB, também não passa de algo feito em cima de um anseio personalíssimo e de viés autoritário, posto que ele como Lula no PT é maior como eleitor do que o partido.
CETICISMO EM ALTA - Não apenas a corrupção endêmica e a ineficiência operacional mais as velhas promessas não cumpridas levam o eleitor a essa onda de ceticismo em torno das instituições porque não funcionam. Se tivéssemos o voto facultativo, o que seria mais democrático e moderno, o absenteísmo seria a regra porque é realmente intolerável a farsa cotidiana da política. Vemos nessa hora os apóstatas repetindo os alertamentos de Brecht sobre o analfabeto político, texto aliás em alguns pontos abominável por seu teor fascista. Há um temor pânico da ‘‘classe’’ diante do negativismo, do ceticismo larvar que toma conta das pessoas mais instruídas. Na verdade o maior de todos os analfabetos políticos é justamente um engajado e não o que, pelo inconformismo, se alinha na vertente contrária e inconformada com a canalhice sistêmica.

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