LUIZ GERALDO MAZZA
Uma analogia indispensável
Venho sustentando, como indispensável, um confronto entre o que ocorre na União e o que se dá por aqui nas instituições, os poderes de Estado. Enquanto por lá é normal o Tribunal de Contas glosar e até sancionar desvios federais, isso jamais ocorreria no burgo. Da mesma forma o Ministério Público age com desenvoltura enquadrando mensaleiros e aqui a marca é da timidez se não o claro comprometimento decorrente de enlaces parentais, as malhas do cartorialismo dominante. Também o Judiciário é acomodado, embora tenhamos visto uma certa quebra da passividade nos últimos tempos. Do Legislativo não se pode esperar outra coisa, que não a subserviência que o transforma num apêndice do Executivo.
O CASO RENAN
Normalmente os delegados desses poderes não gostam da analogia porque haveria uma distância entre os anéis, apenas aparentemente concêntricos, da União e dos Estados membros em função do tipo de federalismo que temos e que torna mais fácil o funcionamento da mecânica institucional no plano maior. O caso do senador Renan Calheiros é clássico: Alagoas se fechou na defesa de todos os atos de corrupção do presidente da Câmara Alta. Aliás e já me referi a essa questão o jurista Rui Cirne Lima desenvolve a doutrina de que o federalismo nasce do conceito-raiz de feudalismo. É de lembrar-se que a primeira Carta Magna do mundo, a do rei João Sem Terra, de 1.215 regulou as relações entre o reino e os suseranos.
Se o Estado-membro é frouxo por essas condicionantes culturais por que a resistência permanente de Londrina a torna um exemplo para o país e mormente à Capital, Curitiba? É que essa admirável devassa na Câmara Municipal dá uma natural seqüência a uma tradição de democracia e civismo radicais desde as vitórias da oposição no regime militar até a cassação de Belinati.
NOSSO MENSALÃO
E já tivemos aqui algo mais do que mensalão do cartel do transporte coletivo para vereadores que está no fundamento também do cerco ao prefeito, já afastado, de Juiz de Fora, Minas Gerais e que aparece nitidamente em Londrina. Essa relação hoje está mudada na Capital e tanto que o prefeito Beto Richa, depois de congelar as tarifas, ainda mantém as empresas sob ameaça de uma licitação que sabe impossível, caso o cartel vá à justiça. Obviamente os políticos é que deturpam a relação com as concessionárias e estas não são samaritanas e se obrigam a defender seus interesses e dos seus acionistas.
Parentelismo, a força gravitacional do poder e suas seqüelas na vinculação política e até de amizade, vão formando um caldo de cultura de impossível remoção na sociedade cartorial. E aí o Paraná perde a moral para criticar o coronelismo do nordeste, justamente por sermos uma sociedade mais nova e termos vivido a experiência depuradora do pioneirismo do norte e depois do oeste-sudoeste. Não vemos apenas procuradores de Justiça com filhos na carreira como também desembargadores, às vezes até as esposas, bastando lembrar que somos um dos raros exemplos de dois irmãos senadores e que se empenham em chegar ao governo até numa disputa clânica, familiar.





