68 e 59: qual maior?
  Ano que vem teremos o cinqüentenário da Guerra do Pente como celebramos agora os 40 anos do agito internacional, com escassa expressão local e nacional (consta que no meio da passeata dos 100 mil no Rio estava o coronel Vernon Walters, da Cia, versão dos milicos) e desencadeador do Ato 5.
  Não dá para comparar a rebelião do Quartier Latin com os nossos eventos aí incluído o discurso do Marcito, deputado Márcio Moreira Alves, que mais do que a morte do estudante no restaurante do Calabouço, levou ao braço de ferro a barragem militar contra a Câmara Federal que se recusou a punir o parlamentar por um discurso em que aconselhava as moças a não dançarem com os militares como forma de protesto. Como a Câmara agiu dignamente, veio o Ato 5.
  Se é despropositada a analogia entre o agito mundial, no qual convergiam a liberação sexual e também das drogas, a bronca aberta contra a guerra do Vietnã, e o que se deu no Brasil e em Curitiba, maior será o disparate se o 68 da Capital ombrear-se com o 1959 da Guerra do Pente, seguramente uma sublevação sem paralelo nos nossos movimentos populares pelo fato elementar de a cidade ter ficado sitiada por três dias com a PM sem capacidade para debelá-la e só retornou à calma com a intervenção dos carros blindados do Exército.
QUEDA DE CLICHÊS
  Se no campo da rebelião popular, o evento referido derruba a imagem da Curitiba condescendente, passiva, acomodada (o que também houve na histórica ‘‘revolta do tostão’’ e em sucessivos quebra-quebras por causa da alta da carne ou da derrubada de bondes por estudantes no aumento da tarifa) a segunda nevasca de 1975 detona o clichê do cidadão introvertido e tímido e o revela mais do que solidário e carnavalesco. Há, no entanto, uma linha racista na Guerra do Pente, pois se dirigiu contra descendentes de árabes.
  Ocorre que um ‘‘patrício’’ é que a originou ao bater num PM da reserva que lhe exigia, por haver comprado um pente, a nota fiscal quando o concurso ‘‘Seu Talão Vale Um Milhão’’, bolado por outro árabe, o deputado estadual Aníbal Khury, impunha que a aquisição tinha que ser no mínimo de cinqüenta cruzeiros para ser exigida. Daí a confusão se espalhou e a baderna contra armazéns e quitandas de sírios e libaneses tomou conta da cidade.
O FOLCLORE
  A despeito do clima de elevada tensão dos episódios também geraram situações bizarras e folclóricas. Um locutor da Rádio Guairacá, sem querer, espalhou a rebelião para outros bairros. Dizia coisas assim: ‘‘temos a informação de que um menina de oito anos foi morta a patadas de cavalos pela ação da Polícia Militar. A notícia ainda não foi confirmada, mas caso o seja
o furo é nosso.’’ A PM não conseguia conter a loucura e a cidade foi sitiada por três dias até que uma notícia radiofônica levou a patuléia à mansão dos Caluf (recepção social pelo ordenamento do padre Emir) e que redundou numa pedra arremessada contra o carro do general comandante da 5a Região Militar que estava presente.

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