Uma reflexão analógica

Vivíamos em 1964 democracia plena. Não há como negá-lo. Tanto que dois anos antes do golpe ou ''contra-revolução'' tivemos uma eleição com acesso gratuito ao rádio e à televisão. Os poderes funcionavam normalmente e o que maximizava a crise política, bem menos densa do que a de hoje com um festival de corrupção e trama sem paralelo na vida nacional, era a Guerra Fria, daí a esquadra ianque estar nas costas brasileiras para consolidar a vitória já obtida nas ruas dos sediciosos com a marcha das rezadeiras que superou de longe os comícios das reformas e as ações de quebra da disciplina militar.

Acusava-se o regime de estar montando uma república sindical, hoje instalada e enraizada com os ''comissários do povo'', afinal integrantes de uma outra hierarquia do proletariado e pós-graduados em produção de dossiês e sobretudo em altíssima corrupção, deitando e rolando. Resta que deflagrem com o tal PAC, um rótulo de enganação, aquilo que pelo menos os milicos fizeram: a construção da infra-estrutura brasileira e que permitiu saltos do PIB bem mais válidos e significativos do que os de agora, tão festejados e que não enxergam a marcha da inflação dissimulada pela euforia do consumo.

Temos mais democracia, é verdade, mas o populismo, com todos os seus males cívicos e econômicos, nunca esteve em metástase como agora.

Requião na frente
Nos discursos na inauguração do teatro Positivo, Requião deu de dez a zero em Beto Richa, mesmo diante de platéia majoritariamente tucana. Acontece que aquele Requião estava despojado de ressentimento e inveja, que tanto o dominam diariamente, e parecia um socrático ao revelar que o reitor Oriovisto era da Polop, grupo trotskista na política universitária. Requião, ao que se saiba, a esse tempo, era muito ligado em teatro, não o de Brecht, e nas artes de grafitar cavalos.

Na escolinha, hoje, menos à vontade, pois tiraram o ferrão da vespa, já não terá um desempenho tão bom e elegante. Afinal, tem que mostrar o que está fazendo e isso é tão misterioso quanto a pedra da Roseta.

Momento crítico
O fato de estarem sendo discutidos os critérios de promoção a desembargador já é mostra de avanço num setor normalmente impermeável a investigações e a críticas. E tudo começou na intimidade do Poder com a ação da Associação dos Magistrados, que deu um basta, convalidado pelo Conselho Nacional de Justiça, à prática do nepotismo.

A impressão que se tem é que a instância superior parece estar acima de qualquer indagação, haja vista para o caso rumoroso da construção do Anexo ao Palácio da Justiça, até hoje sem explicações claras. Reportagens desta FOLHA com a Associação dos Magistrados mostraram o desaparelhamento da primeira instância sem que providências corretoras tenham sido adotadas, o que revela um desligamento da realidade por parte da hierarquia, onde o beija-mão, conforme depoimento do jurista Romeu Bacellar, se soprepõe a critérios objetivos de avaliação.

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