Voltei para ficar?
Como seu xará, Roberto Carlos, o governador poderia cantar, no seu retorno, o sucesso ''Eu voltei// voltei para ficar// porque aqui é meu lugar''. Depois da passagem por Havana com o Exército Brancaleone dos bolivarianos, a utopia do momento pode ser outra, já que no entender desse pessoal ninguém no Brasil tem as suas condições para representar essa falange na disputa presidencial.
Obviamente essa opção já está criando problemas diplomáticos para o País, em função até da excelente posição que Lula hoje desfruta como fator de equilíbrio na correlação regional, já que tem espaço de manobra junto aos chavistas (mais Cuba, Bolívia, Equador, Nicarágua), aos quais às vezes tanto se subordina, como também aos mais ajustados como Uruguai e Chile. Não haverá espanto se senadores e deputados paraguaios pintarem por aqui, em Brasília, participando de encontros da Comissão de Relações Exteriores para denunciar esse envolvimento e debatê-lo com nossos parlamentares.
Quebra de norma
A não ingerência em assuntos internos de outros países é fundamento de nossa política externa. Como hoje, porém, o governo parece estar mais atento ao que pensa Marco Aurélio Garcia, aquele do top top e da novela bufa da entrega dos reféns da narco-guerrilha, do que aos ditames permanentes do Itamarati fica essa impressão indecisa, pendular, de que caminhos vamos partilhar e é nela que surfa a ala bolivariana como se agisse oficialmente.
Explorando tais contradições, expressas de forma nítida na aceitação passiva das expropriações da Petrobras na Bolívia, e que podem servir de fundamento a uma ação mais coordenada do Paraguai no Tratado de Itaipu, alvo do nacionalismo da moda e que olha o Brasil como ''imperialista'', o governo Lula facilita essas operações. Temos uma condição de refém, como se viu no caso do gás boliviano e que pode repetir-se em chantagens para ''avanços'' da suposta soberania guarani em relação à hidrelétrica binacional, cuja porta voz mais radical é justamente o ex-bispo Lugo, apoiado por Chávez e o governo da terra.
O equilíbrio
O Brasil, por suas dimensões continentais, tem um papel normal de liderança no cenário geopolítico não apenas da América Latina e esse peso tem sido usado com habilidade em eventuais choques de interesses. O fato de ter dado apoio à autodeterminação de Cuba num momento delicado da Guerra Fria mostra que é possível o exercício da neutralidade e do respeito às regras do jogo sem adernar para o circo das bravatas que hoje marca a região. Quando Jânio Quadros concedeu a comenda a Che Guevara, num momento em que qualquer gesto mais ousado era considerado uma temeridade, houve como sustentar o nível de relações com os Estados Unidos dentro de uma política de relativa harmonia. É que a nossa diplomacia tem competência para repor as pedras do xadrez como sempre o demonstrou. Assim também quando reatou as relações comerciais e diplomáticas com a União Soviética, fruto de uma decisão bem pensada e que cortava qualquer sentido de submissão à hegemonia imperial. Respeitar as raízes desse processo é estar em ajuste com a nossa marcha civilizatória.

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