LUIZ GERALDO MAZZA
Protesto e pretexto (3)
Um dos macetes da arte engajada é a colagem de hinos patrióticos ou textos clássicos em criações musicais, como o de Guantanamera, em que há reprodução de trechos da poesia do herói e poeta Martí. Num dos sucessos ufanísticos da fase patrioteira do ''Estado Novo'' de Vicente Celestino, ''Terra Virgem'', havia um verso ''No alto Corcovado engastado// reina o Cristo Redentor''... com o ritmo da abertura do Hino Nacional. O primeiro quarteto era de um radicalismo cívico aterrador ''O meu Brasil para aumentar a sua glória// dia virá em seu futuro ascensional// em que o mundo invejará a sua história// porque serás um paraíso universal!//'' Como se vê a lira aceita tudo.
Às vezes o tema do operário que constrói prédios e não tem casa pra morar é retomado como aconteceu com Zé Ramalho, menos conciso que o pedreiro Valdemar e mais melodramático em que se mostra que o trabalhador ajudou a construir um edifício, a escola, a igreja e faz uma pregação primária de justiça social bem do nível dos nossos vereadores e deputados. Para dar uma idéia da pieguice na escola a filha do construtor não pode entrar porque está descalça. Há aquela outra do sapato furado, quase um saque chapliniano: ''Ai meu Deus eu ando com o sapato furado// tenho a mania de andar engravatado// a minha cama é um pedaço de esteira// e uma lata velha que me serve de cadeira//''.
O melhor Neruda
Não poucos críticos de arte preferem a poesia romântica de Pablo Neruda à política. Normalmente o engajamento, por mais bem intencionado, se torna artificial na busca de efeitos ao gosto da ação política. Uma das fábricas de ideologia do pré-1964 era o Centro Popular de Cultura, o CPC, da União Nacional dos Estudantes, obviamente financiado por ministérios, e destinado a oferecer respaldo a outra máquina de politização forçada, o Iseb, Instituto Superior de Estudos Brasileiros, que fazia uma suruba de marxismo, nacionalismo, existencialismo e uma pitada de cristianismo, dos quais todo intelectual sério, que os serviu, como Roland Corbisier, Hélio Jaguaribe e Guerreiro Ramos há de guardar um pesado constrangimento pelo ridículo da participação. Da mesma forma que a ideologia pode ajudar em alguns casos é altamente prejudicial como a demora em conceder a Neruda o Nobel que outra poeta, bem menos qualificada, também chilena, Gabriel Mistral, ganhara.
O lado bom
Alinhada ou ''alienada'', a boa arte prevalece. Um crítico marxista, Plekanov, no livro ''Arte e Sociedade'' faz justamente um balanço de quando prevalece uma ou a outra tendência entre arte engajada e a chamada arte pela arte, mostrando que essa pode ser, em determinado momento, uma face oblíqua da resistência. A boa arte e o talento superam o rigor do alinhamento: o cinema neorealista italiano, em que pese a crueza da estética da pobreza e do país devastado, onde o melodrama quase alcança a pieguice, produziu maravilhas como ''O Ladrão de Bicicletas'' de Vitório de Sica, ''Roma, Cidade Aberta'', ''Milagre em Milão'' e especialmente o trágico ''Umberto D''. No ''cinema novo'' brasileiro também demos exemplos, apesar do tom quase ''noir'' das produções, como ''Rio, 40 graus'', ''Rio, Zona Norte'' e ''Vidas Secas''.
A ideologia mais prejudica do que favorece ainda mais quando a visão negativa dos processos acaba se impondo como meio de busca da verdade.





