LUIZ GERALDO MAZZA
Protesto e pretexto (2)
A pretensão de que uma poesia ou um canto mudam a realidade, engajam pessoas, é uma ilusão. Até que ponto o ''Navio Negreiro'' de Castro Alves mobilizou gente pelo abolicionismo? Excelente para discurso (''era um espetáculo dantesco o tombadilho// e das luzernas que avermela o brilho// em sangue a se banhar// tinir de ferros, estalar de açoites// legiões de homens negros como a noite// horrendos a dançar//'') como aquele que o Dalton Boechat fez no Guairão sobre o pavilhão nacional, como relações públicas da Petrobras, anunciando que em futuro próximo teríamos petroleiros com a nossa bandeira e emocionado repetia que lá no alto do mastro estaria o ''auri-verde, pendão da minha terra// que a brisa do Brasil beija e balança// estandarte que a luz do sol encerra// nas asas divinas da esperança//''. Castro Alves, menos alinhado que Fidel, era a citação como a clássica ''a praça é do povo como o céu é do condor''. Haja catarse e frio na espinha.
Manipulação herética
Embora alinhado na modernidade, Caetano Veloso não hesitou em ver no ''Pra não dizer que não falei de flores'' do Vandré um ''hino nazista''. Eu próprio vi o pessoal da direita numa eleição da Federação dos Servidores Públicos do Paraná entoar como ''sua'' a convocação de quem ''sabe faz a hora não espera acontecer'' e bateu a esquerda sem que isso se deva atribuir à canção. Obviamente mais cantada do que ''A disparada'', essa mobilizadora também, mas com algum refinamento épico. Para os chatos ideológicos era preciso evitar alienar-se, todavia todos se renderam ao tom nostálgico de ''A Banda'' do Buarque cantada pela doce Nara Leão como já havia ocorrido com ''Sabiá'' que sobrepoz a lira à ideologia.
Estresse
O excesso de alinhamento passa por estresse e fadiga do material. Tanto que a nossa gloriosa APP-Sindicato, a mais forte organização para greves e exercício de pressão, depois de muito empregar o tom beligerante do Vandré decidiu mudar pela mais alegre e idiotíssima ''que bom bom bom chibombombom'' cujo refrão ''revolucionário'' afirmava que o de ''cima sobe, o de baixo desce'' e que fazia o sucesso de ''As Meninas''. Uma das expressões da esquerda, Oscar Niemeyer, gênio da escultura arquitetônica, jejuno em política, como já havia alertado Gilberto Freire, é de uma pobreza exemplar quando faz gravuras políticas como o da América Latina sangrando no Memorial em São Paulo ou esse agora de Cuba de um primarismo assustador. É algo da pior fase do ''realismo social'' dos soviéticos.
Essa pretensão de que o texto, um poema ou romance, ou uma pintura e ainda uma canção façam a cabeça da massa é tão cretina quanto aquela outra voltada para a ''maldição'' de obras como as de filosofia de Nietzche e Schopenhauer ou o livro de Goethe ''Werther'', que levaria os leitores ao suicídio.
Obviamente podem servir, no máximo, de apoio à propaganda como se deu na segunda guerra quando o heroísmo de Getúlio Vargas era decantado ao lado dos nomes aliados como Churchill e Roossevelt. ''Quem é que usa um cabelinho na testa?// e um bigodinho que parece mosca?// só cumprimenta levantando o braço// eh eh eh, palhaço// Quem tem um Gê que representa a glória// e um Vê que ficará na história// e um sorriso que nos dá prazer// eh eh eh vitória!''





