LUIZ GERALDO MAZZA
Protesto e pretexto (1)
Deu-se no Brasil, por motivos óbvios, destaque excessivo às chamadas músicas de protesto como expressões da resistência civil ao regime. Sempre essa foi uma linha, por vezes ingênua, por vezes marcante da nossa lira popular. No Carnaval, especialmente, até pelo sentido de liberação em que implica, hoje mais notória no comportamento sexual, a reivindicação por salário e moradia sempre foi uma constante. Mesmo em tempo não inflacionário, reclamava-se faltar um zero no ordenado dos trabalhadores. Sempre na marchinha, que era a linha dominante: ''Trabalho como um louco// mas ganho muito pouco// por isso vivo sempre atrapalhado// fazendo faxina, comendo no china// está faltando um zero no meu ordenado//''
MORADIA
Apesar das reclamações dos mutuários quanto aos reajustes, o problema se transformou em questão de Estado como quando havia o BNH, Banco Nacional de Habitação e agora o Ministério das Cidades. É plataforma constante dos políticos, muitos dos quais promovem primeiro as invasões e depois tratam como benfeitores máximos dos processos de regularização fundiária. Muitos se elegem em cima desse item, como aconteceu com o Luiz Claudio Romanelli, antes de dedicar-se a ''furar'' praças de pedágio, e pode ocorrer com Rafael Greca, que produzirá discursos tão candentes quanto o livro do seu antecessor que abordou aspectos jurídicos e sociológicos do direito à moradia. A marchinha do caracol é desse alinhamento: ''Há muito tempo não tenho onde morar// se é chuva, apanho chuva; se é sol, apanho sol// francamente pra viver nessa agonia, eu preferia ter nascido caracol// Levava minha casa nas costas muito bem// não pagava aluguel, nem luvas a ninguém// morava um dia aqui, um outro acolá// Leblon, Copacabana, Madureira ou Irajá//''
LUTA DE CLASSES
Essa forma gostosa e lírica de luta de classes se nutre da nossa pulsão pela comiseração, piedade, às vezes tangendo a pieguice, como a estória do pedreiro Valdemar, que faz tanta casa e não tem casa pra morar. Ela é coloquial, convidativa ao raciocínio ''Você conhece o pedreiro Valdemar?// Não conhece, pois eu vou lhe apresentar// De madrugada toma o trem da circular// faz tanta casa e não tem casa pra morar//'' Há um trecho mais claro do que mergulhar nos estudos da ''mais valia'' de Marx: ''O Valdemar, que é mestre no ofício, //constrói um edifício e depois não pode entrar'' Outras narram a imposição da resistência, ainda que não guardem o tom dramático e denso do ''Pedro pedreiro'' de Chico Buarque, como aquela ''Daqui não saio, daqui ninguém me tira// onde é que eu vou morar?// o senhor tem paciência de esperar//'' Nesse diálogo com o senhorio, não é de má estética valer-se do melodramático. Aliás Shakespeare, as óperas e o contido e ''distanciado'' Brecht a utilizaram e Chaplin, que era essencial e fragilizou-se com o som, dizia em transformar pessoas levando-as ao conhecimento pela emoção.
EQUÍVOCO
Muita gente considerava certas obras monopólio da esquerda, outro equívoco, tal qual se deu com ''Pra não dizer que não falei de flores'', no título uma ironia com a arte desalinhada, descomprometida, no velho embate entre a arte pela arte e a arte útil. A direita poderia tê-la cantado e não seria herético fazê-lo em meio as arregimentações das rezadeiras de 1964.





