LUIZ GERALDO MAZZA
Herói de causas perdidas
O sucesso da licitação das novas praças de pedágio, três delas incidindo sobre o Paraná, somado à derrota já consolidada na questão dos transgênicos, mostra que as causas santas do governo estadual não mereciam o caráter quase sacramental que as ornavam. O pior é que a retórica de Requião transforma as derrotas insofismáveis em vitórias.
Dá a impressão de que um casulo, como o dos aparelhos estudantis ou o das seitas fanáticas, sustenta o imaginário desse pessoal, muito deles acreditando piamente que levam a efeito uma revolução, um instrumental que estaria mudando o mundo e as pessoas. Assim o papel ridículo da Copel, usada de forma lúdica na licitação do trecho Curitiba-Florianópolis, é apresentado como um esforço concreto para fazer baixar o pedágio quando seu lance era o dobro do proposto pela empresa OHL.
Risco desnecessário
A estatal foi exposta durante o processo e teve considerável perda no valor das suas ações e apresentou logo após sua derrota (ficou em sexto lugar) uma recuperação próxima dos seis pontos. Assim, o mercado, alvo de anátemas de Requião, mais uma vez salvou a empresa, a primeira quando rejeitou o leilão do tempo de Lerner em função do ataque às torres geminadas e ao apagão, e a de agora diante da demagogia e bobeira oficiais.
O mais grave é que o governador comemora o feito como se o ingresso da Copel tivesse feito desabar os preços. Da mesma forma como os manifestantes contra a venda da empresa tentam sugerir que eles e não o mercado é que levaram o leilão ao resultado negativo. Essa é uma das mais ridículas fórmulas de viver e praticar a ideologia, tal qual se vê nos aparatos universitários com os detentores do poder achando que cumprem o seu papel e que a renovam, ainda que tomada pelo baixo clero e afogada no burocratismo da escolha dos cargos pelos engajados, aqueles que distribuíram panfletos e gritaram palavras de ordem e não os detentores de mérito acadêmico.
Ousadia sem risco
Ser ousado no discurso e acomodado na prática, porque garantido num emprego público, faz desses imaginativos agentes do aplauso incondicional a expressão mais clara da perda de qualquer ideal mínimo. Há mais heroísmo, ao menos numa perspectiva de risco à vida, nos guerrilheiros que picham os prédios da cidade e que obtém feitos acrobáticos escalando mais de dez andares para deixar nas paredes a marca de uma rebeldia sem causa, todavia identificada na forma e no conteúdo com ações de contracultura, marcando os seus espaços territoriais extrapolando a linde dos seus bairros.
O alpinismo selvagem desses rebeldes tem uma construção inequívoca contra o poder e a autoridade. E a maioria esmagadora da sociedade os deplora por causa do vandalismo. Já os pichadores oficiais atuam mais próximos do chão a repetir palavras de ordem como aquela que tudo justifica, inclusive as derrotas de hoje e de amanhã, no teaser retirado de Orwell e da Revolução dos Bichos, inscrita nos muros Requião tem razão. Para os que estão no poder o chefe é mais do que um provedor de necessidades imediatas como também aquelas do imaginário quando então se aproxima do demiurgo, do profeta.





