Valor indispensável

Hoje, 1º de abril, é a sagração da mentira. Por sinal que foi numa data dessas que surgiu, em 1854, o primeiro jornal paranaense ''O Dezenove de Dezembro''. DNA da imprensa já vem chapa-branca porque aquele periódico era também o diário oficial.
Como exercitar a política sem a mentira? E não é preciso mergulhar nas profundas reflexões de Hanah Arendt em torno do tema para percebê-lo. A crise nos aeroportos, mais uma expressão geral da anomia (falta de referenciais institucionais) que engolfa o país, é um desses focos de dissimulação que vão do jogo de empurra de responsabilidades a evidências de sabotagem submetidas ao eufemismo de ''operação padrão''.
Um político que dissesse a verdade estaria perdido porque a sua atividade é incompatível com a clareza e oscila entre o translúcido e o opaco. O que salva a classe política é a amnésia do povo que esquece as promessas que foram feitas e concede indulgência plenária aos arautos da mistificação.

Impotência

Entre as formas de impotência que normalmente estão traduzidas em ironias e saques espirituosos dá para lembrar a que considerava a revolução apropriada ao ''1º de abril'' e não 31 de março. Isso não reduziu seu cronograma. Como também chamá-la de ''Redentora'' não a afetava até porque o golpe não foi apenas, na tradição brasileira, operação militar, mas também da sociedade civil expressa nas marchas das rezadeiras.
Foram, porém, tantos os constrangimentos dos tempos de chumbo que os próprios militares decidiram não mais comemorar a revolução, assim também encarada por brazilianistas, ao contrário do que faziam com as celebrações pedagógicas sobre a Intentona Comunista de 1935. Assim a impotência também derivou para o lado dos militares, dentre os quais pouquíssimos como Jarbas Passarinho ainda a defendem.

'Guerra Fria'

Numa série de debates sobre João Goulart na Facinter fiz questão de mostrar a obviedade de quanto tudo esteve condicionado à Guerra Fria e que isso teve início nos campos de batalha na Itália na 2 Guerra Mundial. Uma elite de milicos, dentre eles Castelo Branco e Cordeiro de Farias, esse tenentista da Coluna Prestes, lá fixou as bases do ajuste geopolítico em torno dos acertos decorrentes das conferências de Yalta e Potsdam. Primeiro como consequência da vitória da democracia derrubaram Getúlio Vargas e deram aí os fundamentos das crises que desembocariam em 1964, o estágio mais duro em 1961 quando Brizola afrontou a tentativa de impedir a posse de Goulart após a renúncia de Jânio.
Uma curiosidade: o homem da CIA, coronel Vernon Walters, era oficial de ligação na Itália com nossas tropas e foi ele que veio a Curitiba tratar com Cordeiro de Farias, então na 5 Região Militar, da criação da ESG, Escola Superior de Guerra, cuja doutrina estava ligada àqueles compromissos com a visão já hegemônica dos Esteites. JK tentou filtrar isso com o ISEB, Instituto Superior de Estudos Brasileiros, que virou uma fábrica de ideologia, do qual os que o dirigiam como Hélio Jaguaribe lembram tudo com algum constrangimento.

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