LUIZ GERALDO MAZZA
A rebelião das massas
Tudo a ver com a obra de Gustave Le Bon, Psicologia das Multidões e muito pouco face a de Ortega y Gasset, A Rebelião das Massas, tivemos nos últimos dias de novembro algumas reflexões sobre A Guerra do Pente, de 1959, e que durou de 8 a 10 de dezembro na Curitiba sitiada pela baderna. Há uma coincidência étnica no episódio: a lei que deu causa ao conflito e que estimulava o pedido de notas fiscais era de Aníbal Khury. Seu talão vale um milhão; o comerciante que bateu no cliente (ele pedia nota pela compra de um pente que custava 8 cruzeiros quando o limite da exigência era de 80) era de origem árabe e o último incidente que precedeu a intervenção do Exército se deu num ataque a pedradas no carro do general comandante da 5ªRegião Militar, na mansão dos Calluf, que celebrava a sagração como padre do franciscano Emir.
Essas coincidências são suscitadas até como fator de neutralização para o caráter racista do quebra-quebra que se seguiu aos incidentes da Praça Tiradentes que visava apenas lojas de patrícios. Ora as relações com árabes sempre foram marcadas pela fraternidade e a explosão de hostilidade, apesar das explicações até no meio acadêmico chegarem a duas dezenas, o tema persiste desafiador.
Praça-estuário
Hoje a Praça Tiradentes não é mais o centro numa cidade poli-nuclear, mas até os anos 60 manteve essa logística e se transformava no estuário das aglomerações não apenas religiosas. Comícios, por exemplo, ou eram lá ou na Praça Osório ou na Santos Andrade. Até pouco antes do episódio havia a estação central de bondes justamente por ali. Era, portanto, o local ideal da fagulha na pradaria como se dava também nos quebra-quebra contra a alta da carne verde. Tudo começou com a exigência da nota fiscal indevida e com a reação do comerciante. Daí a troca de socos foi rápida e o cliente levou a pior. Em poucos instantes a patuléia, eriçada, justiceira, passou a quebrar lojas e o pandemônio se alastrou com a Polícia Militar, impotente diante da aparência de guerrilha em outros pontos da cidade. E as rádios cobriam os acontecimentos e facilitavam, psicologicamente, as ações em outros bairros. E foi uma delas que estranhou que enquanto o povo era espaldeirado nas ruas o comandante da 5ªRegião Militar estava na mansão dos Calluf para celebrar o ingresso do padre Emir. Bastou isso para que um gaiato fosse lá e atirasse uma pedra no carro do comandante.
Curto psicossocial
Pode-se dizer que o evento estava mais perto de Gustave Le Bon que se ocupou do psicossocial das multidões, com os membros da massa respondendo estímulos sem qualquer controle como peças de um conjunto informe. Um curto-circuito deu origem a tudo e o sítio só acabou com a intervenção do Exército, incluindo blindados.
No meio das transmissões radiofônicas um saque bem em acordo com o clima, o background da agitação: o repórter anunciou que uma criança de 3 a 4 anos teria sido morta a patadas de cavalo nas ações dos milicianos. O fato ainda não foi confirmado, mas se o for, o furo é nosso. Meio folclórico, tal qual a essência de todo o ocorrido.





