LUIZ GERALDO MAZZA
Hora da autocrítica
O resultado da eleição mexeu com o nosso governador e isso ficou demonstrado não apenas na desastrada entrevista em que culpou a mídia por não ter atingido o que esperava, mas em atos subseqüentes até esse derradeiro do despejo da PIC das suas instalações e que serviram, por algum tempo, de residência oficial para Alvaro Dias. É que se atribui, o que deve ser melhor analisado, a pequena diferença de pouco mais de 10 mil votos ao escândalo das arapongagens e cujo impacto institucional, por abranger três poderes e mais o Ministério Público, ainda não foi corretamente mensurado, até porque as provas recolhidas nas fitas por serem clandestinas não devem e nem podem ser expostas.
Ao Ministério Público, em função das prerrogativas que detém desde a Carta de 1988, não há outro caminho que não o de aprofundar as investigações e checá-las. E isso se torna impositivo depois da também desastrada manifestação do procurador Geral de Justiça, Riquelme de Macedo, precipitando juízo de valor e inocentando previamente o governador, matéria usada na campanha eleitoral.
O fato é que nunca se exaltou tanto o grampo como neste governo, e várias das operações, como aquela desencadeada contra empreiteiros, tiveram respaldo na eficiência de um equipamento de sintonia fina, o Guardião, apto a captar 600 conversas telefônicas simultaneamente. Tentar fazer com que a CPI pegasse ocorrências desde o governo Lerner é manobra diversionista que poderia ser respondida com uma ironia, a de que se devesse examinar até que ponto o grampo ajudou a derrubar o governador Haroldo Leon Peres ou, quem sabe, episódios assemelhados que pudessem ter ocorrido desde a gestão do Conselheiro Zacarias de Góes e Vasconcellos, até hoje o nosso governante de maior prestígio nacional.
Mansão
A casa em que funcionava a PIC pertencia originalmente ao jornalista Roberto Barrozo Filho e que passou ao governo Richa numa transação. Foi inaugurada com muita festa por João Elísio, o vice, que completou o mandato. O primeiro a ocupá-la como residência oficial foi Alvaro Dias, que a testou e detestou. Por sinal que Alvaro, quando mais jovem, teria escrito uma radionovela em Londrina com o título A mansão do ódio. Uma profecia acidental.
Analogia
Para quem vier a achar estranha qualquer atuação do Ministério Público no sentido de fazer devassas em si próprio e nos demais poderes de Estado é indispensável lembrar que o procurador Geral da República, que fez carreira por aqui, foi quem enquadrou os 40 integrantes do governo Lula e os encarou, na maior tranqüilidade, como quadrilha.
Folclore
Ironia das ironias está para acontecer com a PIC: policiais e delinqüentes que se envolveram no atentado contra a instituição e foram condenados seriam ouvidos, como delação premiada, e trariam novos ônus à imagem desse órgão importantíssimo. É mais fácil pelo jeito saber o que houve em 2000 do que agora em 2006, dado o caráter sigiloso do processo.





