LUIZ GERALDO MAZZA
Apologia da pobreza
Mais pobre do que a pobreza, tão conclamada na campanha eleitoral, é a pobreza da pregação. Se Lula diz que apoiará distribuição de dentaduras aos necessitados, Alckmin é capaz de sugerir que socializará implantes. E assim por diante, seguindo, aliás, um velho cacoete brasileiro, o de exaltar a pobreza e não apenas seu lado franciscano, de culto à simplicidade e ao frugal, o que é constante na lírica nacional. ''Barracão de zinco,// tradição do meu país'' e toca a rimar com feliz ao lembrar que ''barracão no morro é bangalô.''
Se Requião insiste em atribuir poderes demiúrgicos ao leite das crianças, Osmar para não ficar por baixo vai mais longe e promete que o produto que azedar se transformará em coalhada para o pessoal da terceira idade. Faltaria acrescentar a doação de corega para que dentaduras postiças não deslizassem.
A campanha eleitoral, até por causa do instrumental moderno colocado em favor dos candidatos, é um desaprendizado cívico. O jornalista Eduardo Schneider, saturado desse baixo astral, mais piegas do que melodramático, imagina um piá de classe média assistindo o horário eleitoral na tevê e quando o pai lhe pergunta o que deseja no futuro responde de pronto ''quero ser pobre!''
Pesquisa
Campanha eleitoral sem pesquisas, mesmo que discutíveis como sempre, é como o tabagista sem cigarro, o alcoólatra sem pinga e o toxicômano sem droga. Quando elas desaparecem do cenário prevalecem, para efeito interno dos interessados, as de uso doméstico que são vazadas para produzir informe e contrainformação. E quem não tem ibope do DataFolha se sustenta com as caturras como a Alvorada ou a Paraná Pesquisas. Por sinal que muitas vezes o nível de acerto das locais -e dá para citar, do passado recente, o Instituto Bonilha- foi superior.
Cotas
O que é melhor, diz o simplificador: as cotas ou as cocotas?
Reeleição
Com experiência em seu currículo, Gerson Guelmann, braço direito de Lerner no gabinete e em campanhas eleitorais, disse, bem antes do processo atual, que só a incompetência explica uma derrota em projeto de reeleição. Está do lado de Osmar, pela convocação, mas concede o handicap ao adversário e o provoca.
Tarifas
Se as tarifas de ônibus de Curitiba persistirem congeladas, a Urbs não poderá escapar de um subsídio mensal da ordem de R$ 4 milhões e sem renovar frotas. É o sucateamento programado, visível em veículos com mais de 10 e 15 anos.
Folclore
Requião falou em 24 hospitais quando só há dois operando, Lula em 40 universidades quando só criou duas. Campanha eleitoral lembra garçom de boate que põe na despesa a placa do carro do cliente, seu RG e CPF.
Analogia
Se o PIB crescesse como a corrupção, estaríamos logo no primeiro mundo.





