LUIZ GERALDO MAZZA
Mosaico e unidade
O Brasil é um mosaico de regiões bem definidas, com geografia física e humana identificadas com precisão, mas só se expressa como unidade nacional muito mais na Copa do Mundo do que em traumas como o da guerra. Essa visibilidade se dá em função dos nossos talentos nos quais aplicamos a doutrina de Osvald Andrade do Movimento Antropofágico: assimilamos um esporte importado da Inglaterra e o tornamos, pela aculturação, algo essencialmente nosso, com a nossa marca, apesar da tendência à padronização pela rigidez dos esquemas táticos em aplicação.
Aquilo que os patrioteiros formalistas pretenderam, tanto no Estado Novo de Getúlio Vargas como no regime militar mais recente, com a liturgia em torno dos símbolos nacionais é muito mais captada, de forma objetiva, agora no culto à seleção de futebol. Temos um Brasil paulista, aliás rico em diversidade até nas etnias, um Brasil fluminense, mineiro, gaúcho, amazônico e nordestino da definição desse mosaico que só esse fenômeno esportivo-cultural e cívico obtém o amálgama.
País e região
Deu para ver, já no sofrimento diante da Croácia, o quanto penetra no sentir nacional essa devoção que alcança o campo e a cidade, a megalópole e o vilarejo, o núcleo indígena ou dos quilombolas. E o mais rico disso tudo está na circunstância de os enclaves étnicos se postarem em favor do Brasil e só subsidiariamente por seus países de origem.
É por aí que se vê o grau de escassez de lideranças políticas ou de qualquer natureza, que possam ser vistas como símbolos de heroísmo, com os quais se possa ter identificação. E isso deveria constituir-se numa preocupação, num fator seríssimo para reflexão, como se estivéssemos a constatar que temos mais exemplos de vilania do que de afirmação.
Mesmo com a formidável máquina de propaganda na mão dos governos, nas quais se despende fabulosos recursos no culto à personalidade em níveis semelhantes ao dos países totalitários, avança-se muito pouco na direção da unidade, pois a maior parte do que faz nega, sistematicamente, que sejamos, como acentua o ''teaser'' governamental, ''um país de todos''.
Apropriação política
Como facilmente o poder tenta se apropriar desse bem cultural de todo o povo, que é o futebol, temos um histórico dos desvios ocorridos ao longo do tempo desde a Copa de 1938 quando chegamos em terceiro e ficamos muito tempo lamentando uma suposta perfídia da arbitragem no jogo contra a Itália e que naquele certame tanto servia ao fascismo mussolinista como as Olimpíadas de 1936 nutriram o nacional-socialismo de Hitler. Lembre-se aqui novamente que o nome do partido nazista lembra algo familiar aos nossos dias ''Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães''.
Em 1950 tínhamos tudo para ganhar e mesmo bastando um empate para a conquista perdemos de 2 a 1 para o Uruguai. Desde aquele tempo a mística de melhores do mundo que não se afirmava na prática era a marca do nosso comportamento e, mais do que isso, da nossa convicção. Finalmente em 1958 e em 1962 chegamos lá e só em 1970 é que a conquista do tricampeonato serviria de lastro para o regime até porque o presidente Médici era um esportista autêntico e comandava o governo do país que dava saltos no PIB e nas obras ciclópicas e, no entanto, se fundava também na tortura e na perseguição. Apesar de as conquistas de 1958 e 1962 se darem num regime democrático e a de 1970 numa ditadura vimos que as razões políticas não impediam que todos, incluindo exilados e os que estavam nas prisões, participassem da euforia, tal como se daria nas copas subsequentes e certamente na atual, se o merecermos, o que, convenhamos, a estréia não convenceu. Nem por isso diminuiu a fé e a quase certeza que ontem, 1938, vinham na animação de Gagliano Neto e hoje na do criticado Galvão Bueno.





