LUIZ GERALDO MAZZA
Vitimalismo, um risco
Adhemar de Barros, como também Maluf, já afirmaram isso que o Lula agora diz com tanta convicção: ninguém até hoje, na história brasileira, afinal foi tão investigado quanto ele. Se o perfil moral de Adhemar e Maluf, aliás bastante assemelhados, irrita um petista que ainda acredita na bandeira sórdida da ética que hipocritamente desfraldava, o fato é que a craca tudo nivelou.
Apesar, porém, da série de fundamentos que poderia ser invocada para pedir o ''impeachment'' do presidente, hipótese que a OAB nacional não descarta como guardiã da legalidade, há o temor de os que venham intentá-lo recebam a pecha de golpistas como o afirmava o primeiro ministro Zé Dirceu quando eram descobertas as tramóias da pouco honorável sociedade. O vitimalismo é algo que marca a política nacional.
Dá para lembrar de um caso: o de Getúlio Vargas. Na véspera do suicídio e da revelação da Carta Testamento, em agosto de 1954, o sentimento nacional se voltava contra o presidente, tantas as evidências acumuladas, é claro que presumidas até por força da pressão da Aeronáutica, o que mudou inteiramente no dia seguinte quando da notícia da tragédia. O suicida, dizem tratadistas da área, deixam para os seus a investigação do culpado. O país se levantou, em ato de purgação de culpas, contra algozes reais ou imaginários.
Por muito menos do que ocorreu agora, Collor tirou o time de campo. Lula não o fará e a pressão tende a aumentar na direção do impedimento porque o seu Ibope permanece inalterado enquanto o do desastrado Alckmin não deslancha.
Aritmética
No primeiro governo Requião a Associação dos Magistrados tomou uma decisão emocional ao pedir o ''impeachment'' do governador. Lembro que houve debate, transmitido em rede nacional pela TV do Martinez, em que magistrados da ativa e aposentados defendiam a greve da corporação. Participei desse debate e apenas eu e o Cláudio Ribeiro, advogado trabalhista, achamos a greve absurda e mais ainda o fato de a OAB regional apoiá-la.
Na ocasião, cheguei a ler o pedido de impeachment, obviamente bem redigido, e quando um dos seus autores perguntou a minha opinião, respondi que processos de impedimento são antes de tudo mais aritméticos do que jurídicos. Era visível, como de fato aconteceu, que a medida seria derrubada.
A OAB agiu mal, passionalmente, ao agregar-se à greve e desgastou-se de forma inútil. Também agora a entidade nacional tem que avaliar todos os riscos antes de tentar a ''ultima ratio'' do impeachment.
Revogue-se o povo
Se depois de tudo o que se viu no Brasil, e de certa forma se percebe em nosso Estado, os governantes se reelegerem, não dá pedir que se revogue o povo que afinal é quem vai decidir. Mas isso não é o fim dos tempos e a rigor apenas de um ciclo que precisávamos encarar.
Folclore
31 de Março de 1964, o Palácio Iguaçu mobilizado, antes a marcha militar que deflagrara a Redentora. Ney Braga, que era muito contestado pela ala mais à direita, precisava deixar clara a sua posição, já demonstrada semanas antes quando lançou ao solo o ''livro único'', preciosidade da didática populista.
Ao deparar-se com o jornalista José Cury, dono da revista Panorama, que estava com muitos documentos embaixo do braço, Ney acreditou que pudesse ser algo como um manifesto elaborado pelo jornalista Guimarães da Costa e perguntou de que se tratava. O Cury, gaguejando como sempre, replicou: ''governador quando é que saem as minhas faturas?''





