LUIZ GERALDO MAZZA
O ludismo redivivo
Na história do socialismo há um momento, no fim do século 18, em que surge como forma de luta o chamado ludismo, referência ao personagem histórico Nedd Lud que foi o primeiro, como trabalhador têxtil, a quebrar o tear que naquele instante se modernizava e ameaçava reduzir a mão-de-obra. É no século seguinte que o movimento se articula na Inglaterra em bases mais consistentes.
Ontem na greve dos motoristas e cobradores tivemos momentos que lembraram essa paradoxal agressão ao próprio meio de trabalho, no caso ônibus e também os terminais. Nos anos 80, em que pese o regime militar, metalúrgicos de São Paulo desencadearam a operação ''cambalacho'', comandada por Meneghelli, que consistia em entregar na linha de montagem carros com defeitos.
O lado mais selvagem das greves ao tempo do anarco-sindicalismo e daquilo que os sociais-democratas de linha marxista chamavam de maximalismo é expressão de momentos históricos, tal qual uma célebre ''parede'' de jornalistas e gráficos de Nova York contra as tecnologias poupadoras de mão-de-obra. A depredação de coletivos e instalações de terminais, o ''fura-pneu'' (houve uma época em que o time daqui importava sindicalistas de São Paulo para usarem o gladiador, um equipamento pérfuro-cortante que cumpria tal papel) e a montagem de piquetes são os excessos que os comandos jamais puderam conter. Ainda mais quando há uma disputa entre grupos que pretendem adonar-se do sindicato e que procuram mostrar força no radicalismo para obter prosélitos.
Há uma relação pactual entre o poder concedente e as concessionárias, no momento rompida parcialmente pelo congelamento da tarifa, a domingueira de R$ 1 e a ameaça de licitação para pressionar o cartel, o que até então levava o prefeito Beto Richa a surfar num suposto sucesso. Ontem houve a ruptura. Do sonho aos umbrais de um pesadelo, ao menos por alguns momentos. Isso passa, já tivemos situações piores nos anos 50.
Aliança
Ainda anteontem, Requião e Beto Richa ajustaram pontos de vista para ver como baixar, por via fiscal, a tarifa, uma antevisão do tumulto do fim do dia. Há mais cena do que fatos tanto no conflito quanto na suposta acomodação das partes.
Justiça
Indispensável que serviços de utilidade pública contem, nas greves, com rituais rápidos da DRT e Justiça do Trabalho e que fixem liminarmente a cota da frota que deve permanecer operando, como se dá na greve hospitalar. Fazer-se de aturdida não pega para a Justiça.
Solidariedade
Impensável que a população deva aceitar o sacrifício do seu ir e vir em favor de uma categoria. Sujeito de direitos, o povo deve exigir o atendimento. Cidadania ativa tem que guardar essa visão multifacetada das coisas.
Repique
Importante igualmente que as partes em litígio vão fundo, mas aceitem aquele mínimo de regras do jogo na intervenção do Judiciário. O descumprimento de uma ordem como a que determinou a volta ao serviço, parcial ou totalmente, e sob ameaça de multa diária de R$ 10 mil, prensa a espinha sindical e é válida. Tal como magistralmente FHC enfrentou a arrogância petroleira que poderia detonar, quase no nascedouro, o Plano Real, estabelecendo multas que levariam a Federação à falência. Até hoje ela briga pelo retorno dos demitidos.
Essenciais
Uma das armas que sempre se usou contra os trabalhadores foi a de fixar restrições à greve em atividades essenciais. Hoje todos a praticam, mas é impensável uma, por exemplo, no serviço de tratamento de água. Ou no Corpo de Bombeiros. Referência só para pensar, refletir. E inibir os hormônios.





