Sempre o repórter
No início de dezembro, o jornalista e escritor Vanderlei Rebelo deve lançar o seu segundo livro, agora uma ampla biografia de Bento Munhoz da Rocha com uma rica documentação inclusive dos arquivos pessoais do estadista. Narra um fato que ocorreu numa das minhas primeiras missões como repórter oficial: testemunhei aquele encontro tradicional entre a maioria parlamentar e o Chefe do Executivo no Palácio São Francisco ao tempo do envio da mensagem. Não havia gravador, não tínhamos taquígrafo e eu tive que confiar na memória. Como era um fascinado pelo maior orador que tivemos não perdi uma só das suas palavras. Mais ou menos assim: ''Quanto a essa oposição que me fazem, conheço-lhe as raízes. Sei os métodos que poderia empregar para anulá-la, mas se estivesse combatendo ombro a ombro com essa gente, estaria traindo o meu mandato.'' E nesse tom a oratória prosseguia: ''Não darei aos vendilhões do templo o que eles querem por essa unanimidade''. Nitroglicerina pura.
Obviamente a publicação da fala em todos os jornais (aquele tempo como agora a informação oficial era recebida com extremo interesse) deu margem à resposta, também violentíssima, da oposição. E ela dispunha de figuras como Acioly Filho e Hélio Setti, gente boa de oratória. O discurso de Acioly Filho ocupou quase duas páginas da ''Gazeta do Povo''. O presidente da Assembléia Legislativa, o mestre de Direito Criminal, Laertes de Macedo Munhoz, tentou suavizar a onda ao argumentar que o registro da reportagem talvez não fosse preciso, já que, como de costume, Bento falara de improviso. Quer dizer: iria sobrar pra mim a condição de causador da crise, algo como o pianista do saloon levar um tiro.

Mestre Homero
Essa reconstituição do texto, pela gravidade da fala, foi feita por mim junto com o chefe da minha repartição, o mestre universitário Homero de Mello Braga (entre os seus feitos está o de ter trazido ao Paraná o Newton Freire-Maia para instituir aqui um centro de excelência em genética humana), que muito me estimulou e um dos que me lançou na carreira jornalística. O órgão do governo, que precederia a Secretaria de Comunicação Social, antecedido pelo Departamento de Imprensa, DEIP, e sucedido pelo Serviço de Imprensa, Departamento de Divulgação e Turismo) era a Câmara de Expansão Econômica e Propaganda. Ela ficava ao lado da Sinagoga na Saldanha Marinho e hoje é um motel redundantemente apelidado de Don Juan. Para acentuar o dado herético (já que ora predomina o erótico) basta lembrar que foi no interior daquele órgão estadual que vi o Padre Lebret, que aplicava a sua doutrina de Economia e Humanismo em programas nacionais e regionais e deixou marcas profundas em nossa história de planejamento. Teorias que me empolgavam pelo fato de manter o cristianismo numa postura de esquerda e até daquilo que poderíamos chamar de uma terceira via, já que estávamos imersos, desde aquele tempo, no furor da Guerra Fria.
Como Homero assistiu a recepção de Munhoz da Rocha à maioria parlamentar e com seu rigor de análise e reflexão achou que o testemunho era verdadeiro e importante assumiu a informação, coisa que nem sempre a hierarquia, em redações oficiais, até porque mais apropriada à iniciativa privada, admite.

Outra indiscrição
No governo que se seguiu ao de Munhoz da Rocha, o da volta de Moisés Lupion, tive outra cena privilegiada. Numa reunião do secretariado comandada pelo titular da Fazenda, o industrial Ivo Leão, a que estávamos presentes apenas eu e o Gauchinho, Carlos Alberto Marques, como repórteres, anunciou a quebra do Banestado. Ao perceber que havia repórteres, ainda que chapa-brancas no recinto, Ivo Leão fez a óbvia recomendação de que não passássemos a informação adiante. E aí conheci um tipo de censura necessária e conveniente. Que poderia ter sido adotada no episódio de Munhoz da Rocha em edição mais pasteurizada e que o bravo Homero de Mello Braga não adotou.

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