LUIZ GERALDO MAZZA
Bento centenário
Duas figuras expressivas do Brasil meridional vão ter o seu centenário de nascimento celebrado em 17 de dezembro: o romancista e editor gaúcho, Érico Veríssimo, e o estadista e sociólogo paranaense Munhoz da Rocha. No oceano de mediocridades em que o Brasil está naufragando essas comemorações abrem uma esperança de que figuras como a desses pensadores ainda existam por aí, e é óbvio que isso acontece, para remir as nossas culpas de um país minado, como nunca, pela corrupção que tende a transfigurar-se de endêmica em pandêmica.
No tempo em que ambos dedicaram a sua vida a obras e estudos o Brasil era marcado por grandes vazios, embora ao sul e no sudeste, alguns arquipélagos culturais ganhassem relativa expressão. Da mesma forma que em Porto Alegre o escritor Érico Veríssimo tocava a Editora Globo, aqui em Curitiba tínhamos, em menor dimensão, a Editora Guaíra. A jornalista Maria Flores tem encadeado um estudo sobre a importância dessa criação de Plácido e Silva que editava também uma revista ''Guaíra'' de nível nacional. Era possível a esse tempo, sem tanta interação, resistir ao fenômeno da macrocefalia do sistema de comunicação pela oposição do que os estudiosos chamam de ''atomização'' na valorização da cultura regional, hoje muito mais afetada.
Sem provincianismo
Não se praticava, nem no Rio Grande do Sul, embora não haja unidade no país tão voltada para os seus rituais, às vezes no exagero da caricatura, haja vista para os CTGs que tomam conta do território nacional, o provincianismo careta de cuidar apenas dos intelectuais da terra. No Paraná isso era visível na produção de um autor maldito pelo ''stablishment'' como o americano John dos Passos: toda a sua obra, desde a sua resistência ao ''american way of life'', até a sua adesão ao anticomunismo fazia parte desse acervo. Havia uma estante do pensamento social em que predominavam marxistas como Marx, Engels e Lenin, anarquistas como Bakunin, socialistas radicais como Rosa de Luxemburgo, a esquerda moderada de Karl Kautski com seu estudo de ''Reforma Agrária'' e as avaliações antropológicas de Feurbach na origem da propriedade e religião. Havia produções curiosas como uma saborosa monografia do sociólogo Roger Bastide, autor de ''Arte e sociedade'', a respeito da psicanálise do cafuné, um exercício sensível nas relações entre a Casa Grande e a Senzala.
A existência desses pólos complementares a Rio-São Paulo-Belo Horizonte iria permitir o adensamento de um intercâmbio e que era marcado por uma produtiva participação do público. Pena que o Paraná não tivesse se valido disso, e tal descompasso persiste até hoje, para avançar como os gaúchos em massa de leitura, um dos indicadores mais elevados do Brasil.
A missão de Munhoz
Um dos feitos de Munhoz da Rocha, ao consolidar Curitiba como pólo político e cultural do Paraná, está em feitos excepcionais que vão além da obra do Centro Cívico para alcançar um dos mais modernos teatros do Brasil e também uma das mais avançadas bibliotecas. Bento foi muito criticado na prioridade concedida às obras do centenário de 1953, o que não o impediu de lançar um Plano Rodoviário que asseguraria a integração física regional, iniciando pelo asfalto (aquele tempo importado) entre Londrina e cidades satélites.
O Paraná abrigou milhares de eventos -regionais, nacionais, mundiais- naquele ano e as multidões tiveram o privilégio de ouvir (às vez em três congressos no mesmo dia) os discursos de Munhoz da Rocha que eram uma expressão de fé no que estrangeiros de todos os recantos e brasileiros de várias origens aqui realizavam: a missão civilizatória de uma ordem democrática centrada numa rica diversidade em que um papel especial era confiado aos pioneiros por seu desprezo às formalidades e o peito e audácia nos seus empreendimentos. Era como se falasse do Garcia Cid em Londrina e também dos que se deslocaram de Santa Catarina e Rio Grande do Sul em sua marcha ao oeste-sudoeste. Um tipo de fé inquebrantável apropriado aos verdadeiros humanistas.





