Eufemismo salvador
Quando o PT afirma que caixa 2 é ''recurso não contabilizado'' vai além de tirar o ferrão da vespa e busca descriminalizar um delito. Lembra a frase de Taleyrand: ''A palavra foi dada ao homem para dissimular seu pensamento''. E a advertência de John Keneth Galbraith que tirava sarro do capitalista quando dizia que fazia um determinado empreendimento para dar emprego e nunca para obter lucros, o que Adam Smith assinaria embaixo porque era um liberal e por isso mesmo conhecia a verdadeira natureza humana.

Com o avanço da tecnologia fica difícil a um empresário encher a boca para dizer essa lorota até porque confessaria a sua incompetência, já que o empreendimento para ser rentável, em primeiro lugar, deve poupar mão-de-obra. A dissimulação verbal é um recurso humano que o sujeito utiliza no gabinete do psicanalista e no confessionário do padre. O sujeito não diz ''estuprei'', mas algo como ''fiz sexo grosseiro'', em lugar de ''roubei'' vale-se da expressão ''fui um administrador temerário.''

''Erramos'' e até precisamos pagar por isso ''é admitido'' como variável de uma confissão clara de culpa, aquela que leva à catarse pela purgação e sinal de arrependimento, no coral do PT sobre a única revolução de verdade que fizeram até agora no governo, a da corrupção desenfreada, orgânica e de traço institucional. No glossário político é muito comum ''ouvir as bases'' que é uma verdade equivalente a da explicação da secretária de que o chefe ''está em conferência''.


Ética
Fui no fim de semana a um fórum de ética profissional do Rotary. E defendi o ponto de vista, que já havia adotado no Conselho Regional de Medicina, de que a ética geral é a relevante e que a voltada para os canais corporativos é ''casuística'' e ajustada a interesses funcionais de cada categoria. O médico ao aceitar convite de um laboratório farmacêutico para uma viagem ou a um congresso fere dispositivo deontológico? Não é fácil o enquadramento.

E jornalista que comparece à ''boca livre'' de político ou empresa? Essa é meio venial, dada a pobreza notória dos profissionais, já que o correto seria o veículo pagar a despesa. Há uma cultura que transforma certos hábitos e praxes em rotina. Agora não adianta também fazer como ''esquerdistas'' nos almoços do Carvalhinho e que depois, angustiados, iam ao banheiro, como os sibaristas de Roma, coçar a garganta para vomitar e livrar-se do pecado. Já os sibaristas regorgitavam para sentir de novo o prazer da gula.


Conflitos éticos
Ainda sobre ética profissional vou citar duas, uma desse valente Ágide Meneghetti, hoje presidente da Faep, que quando dirigia a associação dos agrônomos achava normal que seus colegas vendessem agroquímicos e outra de um gestor da área de anestesiologia que se recusavam, como servidores do INPS, a cobrar ''por fora''. Bati, neste jornal, nos dois casos. No primeiro porque era evidente que, embora houvesse crise de emprego, não parecia correto que um agrônomo fosse vendedor de agrotóxicos por dois motivos: se fossem bom vendedor o faria em prejuízo do receituário equilibrado, e o contrário se daria mal no desvio de função. No segundo porque não havia o menor sentido naquele enquadramento por uma questão subjetiva que poderia derivar da piedade e da comiseração em relação aos clientes. Nessa linha de raciocíonio a maioria dos médicos, meus amigos, estaria enquadrada por não me cobrarem consultas. Felix do Rego Almeida, um dos maiores cirurgiões da escola do bisturi de ouro, Mário de Abreu, operou boa parte de amigos da Boca Maldita sem cobrar. Essa renúncia não pode ser olhada como lesão ética, o que faria da Medicina um ramo estrito do mundo mercantil. Aliás, ética na competição é algo que me leva a rir, tanto que no caso da propaganda se viram obrigados a criar o Conselho Nacional de Autoregulação para evitar o darwinismo na área.

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